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Docentes e alunos da UMinho transcrevem obras musicais de António da Costa

Abade do século XVIII foi original na música e lidou com elites em Itália, França e Áustria.

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O Edifício dos Congregados da Universidade do Minho (UMinho), em Braga, acolhe a 25 de maio o primeiro simpósio internacional e a estreia ao público de obras do compositor e violinista português António da Costa (1714-1780). A música original deste portuense é quase desconhecida, mas recentemente os docentes e alunos da UMinho transcreveram obras suas na WikiScore, a “wikipédia de partituras” que há anos criaram para o mundo. A UMinho pondera também criar um grupo de investigação sobre aquele abade, que privou com artistas e elites em Roma, Veneza (Itália), Paris (França) e Viena (Áustria), na aura cultural do século XVIII.

O simpósio decorre das 11:00 às 19:00 e é organizado pelo Centro de Estudos Humanísticos da UMinho, com o apoio do INESC TEC. As palestras cabem a Elisa Lessa, José Nuno Oliveira, Miguel Simões (todos da UMinho), Licínio Carneiro (Instituto Português de Sto. António em Roma), Mariateresa Dellaborra (Conservatório Giuseppe Verdi, Itália), Rodrigo Teodoro Paula (CESEM/Universidade de Évora), Vanda Anastácio (Universidade de Lisboa) e Inês Thomas Almeida (Universidade Nova de Lisboa).

As obras em estreia pública são “Dueto para dois violinos”, às 11:20, por Miguel Simões e Matilde Araújo; e “Trio sonata para três violinos”, às 18:30, pela Camerata de Cordas da UMinho e Miguel Simões, num concerto pontuado ainda por peças dos compositores Christoph Gluck, Giuseppe Tartini e Georg Wagenseil, com quem António da Costa privou.

Personagem novelesca

“Este abade que homenageamos é uma personagem novelesca – é um mistério saber porque foi a pé do Porto para Roma, porque é que optou por ser ‘o clérigo mais pobre de Viena’, como aprendeu música e a tocava tão bem em contextos exigentes e inovadores, como a sucessão dos seus sons nos surpreende ainda hoje, ou como as elites culturais do Porto (que recebiam as suas cartas) partilhavam a música dele”, exemplifica o professor José Nuno Oliveira, da Escola de Engenharia da UMinho.

Foi no âmbito das suas aulas de Informática para a Musicologia que o docente encontrou online obras de António da Costa na Biblioteca Nacional de Áustria e as transcreveu na WikiScore, bem como uma outra na Biblioteca Estatal de Berlim, citada num artigo da musicóloga do barroco italiano Mariateresa Dellaborra, também oradora no simpósio. Duas dessas obras, desconhecidas do grande público, vão ser tocadas este sábado. Outras, para vozes e cordas, já tinham sido estudadas pelo musicólogo Manuel Carlos de Brito. “É provável que, com a digitalização crescente dos arquivos europeus, surjam ‘novas’ obras do Abade Costa, inclusive em Portugal”, admite José Nuno Oliveira, defendendo mais investigação sobre aquele autor.

Conhece-se a vida de António da Costa sobretudo pelas suas cartas – elogiadas por Teófilo Braga e publicadas por Joaquim de Vasconcelos e Fernando Lopes Graça – e também pelo diário do musicógrafo inglês Charles Burney. A inteligência, poliglotismo e idiossincrasia daquele abade cativou as elites, em cujos salões privados interpretou obras suas. Próximo dos artistas da corte, tocou com italianos como Pietro Nardini e até Giuseppe Tartini fez uma sonata “que soa como o estilo da guitarra do padre português”.

Em Viena, privou com Wagenseil, Gassmann, Gluck e, num sarau em que tocou música sua, foram ouvidas obras coevas de Haydn, logo não é inverosímil que se tenha cruzado com este ou até com Mozart, que começava a maravilhar os mesmos salões. Charles Burney definiu António da Costa como “um Jean-Jacques Rousseau [filósofo e compositor] ainda mais original”, ao seguir “um caminho novo” na música, com a melodia descuidada face à harmonia, a modulação invulgar e o tempo irregular devido a muitas ligaduras e difíceis frações rítmicas.

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