
Quando um presidente anuncia que vai “governar” outro país: a Venezuela, a autonomia dos povos e o sonho imperial de Trump
(Até que…? E qual será o próximo?)
É essencial começar com uma clarificação honesta e inequívoca: não sou apoiante da política interna do actual regime venezuelano. Os erros, abusos, deriva autoritária, colapso económico e sofrimento imposto ao povo são reais, documentados e graves. Negá-los seria intelectualmente desonesto e moralmente irresponsável.
Mas reconhecer esses factos não implica aceitar que um país deixe de ser soberano, nem legitima que outra potência anuncie ao mundo que o irá governar.
Defender a autonomia, a independência e a autodeterminação da Venezuela não é defender um governo, é defender um princípio civilizacional.
1. “Governar até que… quando a crítica a um regime não justifica a tutela externa
Quando o presidente dos Estados Unidos afirma publicamente que os EUA irão governar a Venezuela “até que…”, não está a criticar um governo: está a suspender, na prática, a soberania de um Estado. E aqui reside a linha vermelha que não pode ser ultrapassada.
A Venezuela pode, e deve ser criticada pelos seus próprios cidadãos e pela comunidade internacional nos fóruns adequados. Mas nenhuma falha interna autoriza outro país a assumir o poder político sobre ela.
Governar não é ajudar. Governar não é mediar. Governar é mandar.
2. O perigo da lógica “não gostamos do regime, logo governamos”
Aceitar que uma potência externa governe um país porque o seu governo é considerado ilegítimo ou incompetente abre um precedente perigosíssimo. Hoje é a Venezuela. Amanhã será qualquer outro país cujo governo desagrade aos interesses dominantes.
A História mostra-nos que esta lógica raramente termina em liberdade. Começa com promessas de transição, estabilização e reconstrução, mas frequentemente termina em dependência, exploração e perda de dignidade colectiva.
Ser contra um regime não obriga a ser a favor da sua substituição por um tutor estrangeiro.
3. O fim da hipocrisia diplomática
Com Donald Trump, a linguagem deixa de ser dissimulada. Já não se fala apenas em “pressão internacional” ou “restauração democrática”. Fala-se, frontalmente, em governação externa.
É o abandono definitivo da ficção diplomática:
— a soberania passa a ser condicional;
— a autodeterminação torna-se revogável;
— o poder substitui o direito.
Não se trata de defender Caracas, mas de defender o princípio segundo o qual nenhum país tem mandato para governar outro.
4. A Venezuela não é um exemplo, é um aviso
Ao anunciar tutela sobre a Venezuela, os Estados Unidos enviam uma mensagem clara a toda a América Latina:
a independência existe enquanto for conveniente.
A Venezuela transforma-se num laboratório político do século XXI, onde se testa até que ponto o mundo aceita que a soberania seja suspensa em nome de critérios vagos como “normalidade”, “estabilidade” ou “interesse estratégico”.
Hoje diz-se “até que”. Mas quem define esse “até que”?
Quem avalia quando o país está “pronto”?
Quem garante que esse momento alguma vez chegará?
5. Não defender Maduro não é aceitar um império
É possível, e necessário sustentar três posições ao mesmo tempo, sem contradição:
Criticar o regime venezuelano pelas suas responsabilidades internas.
Solidarizar-se com o povo venezuelano, vítima de decisões políticas desastrosas.
Rejeitar frontalmente qualquer forma de governação externa.
Reduzir o debate a uma escolha binária, “ou apoias o regime, ou aceitas a intervenção”, é uma armadilha retórica que serve apenas quem quer concentrar poder.
A liberdade de um povo não nasce da imposição de outro.
6. “Qual país será o próximo?” deixa de ser uma provocação
Depois desta declaração, a pergunta torna-se inevitável e legítima. Se um país pode ser governado de fora “até que” cumpra critérios definidos por uma potência, então nenhum país está verdadeiramente seguro.
Basta:
desalinhamento político,
recursos estratégicos,
fragilidade económica,
ou uma narrativa conveniente.
O precedente está criado. E precedentes, quando não são travados, replicam-se.
7. A verdadeira questão é civilizacional
O que está em causa não é a defesa de um governo específico, mas a defesa de um mundo onde os povos escolhem os seus caminhos, errando ou acertando, mas aprendendo com a sua própria História.
Quando se normaliza a governação externa, substitui-se o direito pela força e a ética pela conveniência. E isso empobrece todos,binclusive quem governa.
A Venezuela precisa de mudança, sim.
Mas precisa, acima de tudo, de mudança soberana.
Podemos concluir que,
não apoiar a política do governo venezuelano não significa aceitar que outro país o governe. Pelo contrário: é precisamente porque acreditamos na liberdade, na maturidade e na dignidade dos povos que rejeitamos qualquer forma de tutela imperial.
Hoje é a Venezuela.
Amanhã poderá ser outro.
E quando a soberania deixa de ser um direito universal, passa a ser apenas um privilégio concedido pelos mais fortes.


