OpiniãoO Imperador Trump

O Imperador Trump

Artigo de Paulo Veiga.

© Paulo Veiga

Quando um presidente anuncia que vai “governar” outro país: a Venezuela, a autonomia dos povos e o sonho imperial de Trump

(Até que…? E qual será o próximo?)

É essencial começar com uma clarificação honesta e inequívoca: não sou apoiante da política interna do actual regime venezuelano. Os erros, abusos, deriva autoritária, colapso económico e sofrimento imposto ao povo são reais, documentados e graves. Negá-los seria intelectualmente desonesto e moralmente irresponsável.

Mas reconhecer esses factos não implica aceitar que um país deixe de ser soberano, nem legitima que outra potência anuncie ao mundo que o irá governar.

Defender a autonomia, a independência e a autodeterminação da Venezuela não é defender um governo, é defender um princípio civilizacional.

1. “Governar até que… quando a crítica a um regime não justifica a tutela externa

Quando o presidente dos Estados Unidos afirma publicamente que os EUA irão governar a Venezuela “até que…”, não está a criticar um governo: está a suspender, na prática, a soberania de um Estado. E aqui reside a linha vermelha que não pode ser ultrapassada.

A Venezuela pode, e deve ser criticada pelos seus próprios cidadãos e pela comunidade internacional nos fóruns adequados. Mas nenhuma falha interna autoriza outro país a assumir o poder político sobre ela.

Governar não é ajudar. Governar não é mediar. Governar é mandar.

2. O perigo da lógica “não gostamos do regime, logo governamos”

Aceitar que uma potência externa governe um país porque o seu governo é considerado ilegítimo ou incompetente abre um precedente perigosíssimo. Hoje é a Venezuela. Amanhã será qualquer outro país cujo governo desagrade aos interesses dominantes.

A História mostra-nos que esta lógica raramente termina em liberdade. Começa com promessas de transição, estabilização e reconstrução, mas frequentemente termina em dependência, exploração e perda de dignidade colectiva.

Ser contra um regime não obriga a ser a favor da sua substituição por um tutor estrangeiro.

3. O fim da hipocrisia diplomática

Com Donald Trump, a linguagem deixa de ser dissimulada. Já não se fala apenas em “pressão internacional” ou “restauração democrática”. Fala-se, frontalmente, em governação externa.

É o abandono definitivo da ficção diplomática:

— a soberania passa a ser condicional;

— a autodeterminação torna-se revogável;

— o poder substitui o direito.

Não se trata de defender Caracas, mas de defender o princípio segundo o qual nenhum país tem mandato para governar outro.

4. A Venezuela não é um exemplo, é um aviso

Ao anunciar tutela sobre a Venezuela, os Estados Unidos enviam uma mensagem clara a toda a América Latina:

a independência existe enquanto for conveniente.

A Venezuela transforma-se num laboratório político do século XXI, onde se testa até que ponto o mundo aceita que a soberania seja suspensa em nome de critérios vagos como “normalidade”, “estabilidade” ou “interesse estratégico”.

Hoje diz-se “até que”. Mas quem define esse “até que”?

Quem avalia quando o país está “pronto”?

Quem garante que esse momento alguma vez chegará?

5. Não defender Maduro não é aceitar um império

É possível, e necessário sustentar três posições ao mesmo tempo, sem contradição:

Criticar o regime venezuelano pelas suas responsabilidades internas.

Solidarizar-se com o povo venezuelano, vítima de decisões políticas desastrosas.

Rejeitar frontalmente qualquer forma de governação externa.

Reduzir o debate a uma escolha binária, “ou apoias o regime, ou aceitas a intervenção”, é uma armadilha retórica que serve apenas quem quer concentrar poder.

A liberdade de um povo não nasce da imposição de outro.

6. “Qual país será o próximo?” deixa de ser uma provocação

Depois desta declaração, a pergunta torna-se inevitável e legítima. Se um país pode ser governado de fora “até que” cumpra critérios definidos por uma potência, então nenhum país está verdadeiramente seguro.

Basta:

desalinhamento político,

recursos estratégicos,

fragilidade económica,

ou uma narrativa conveniente.

O precedente está criado. E precedentes, quando não são travados, replicam-se.

7. A verdadeira questão é civilizacional

O que está em causa não é a defesa de um governo específico, mas a defesa de um mundo onde os povos escolhem os seus caminhos, errando ou acertando, mas aprendendo com a sua própria História.

Quando se normaliza a governação externa, substitui-se o direito pela força e a ética pela conveniência. E isso empobrece todos,binclusive quem governa.

A Venezuela precisa de mudança, sim.

Mas precisa, acima de tudo, de mudança soberana.

Podemos concluir que,

não apoiar a política do governo venezuelano não significa aceitar que outro país o governe. Pelo contrário: é precisamente porque acreditamos na liberdade, na maturidade e na dignidade dos povos que rejeitamos qualquer forma de tutela imperial.

Hoje é a Venezuela.

Amanhã poderá ser outro.

E quando a soberania deixa de ser um direito universal, passa a ser apenas um privilégio concedido pelos mais fortes.

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