
Há cartazes que procuram convencer. Outros procuram emocionar. E há aqueles que, pela sua simplicidade, acabam por levantar uma pergunta inevitável:
– Quem salvará Portugal dos seus próprios salvadores?
A palavra “salvar” é poderosa. Sugere que o país se encontra à beira do precipício e que existe um grupo de iluminados, moralmente superiores, capazes de o resgatar da decadência. É uma narrativa antiga, eficaz e emocional. O problema começa quando aqueles que se apresentam como juízes absolutos da vida pública descobrem que a exigência ética que reclamam para os outros também lhes bate à porta.
É curioso observar como certos discursos vivem da condenação permanente, todos os dias existe um culpado novo, ora são os governos, ora os partidos tradicionais, ora as instituições, ora os tribunais, ora a comunicação social. A culpa parece ser sempre dos outros, nunca da própria casa.
Contudo, a realidade tem um estranho hábito de contrariar os discursos mais inflamados. Um após outro, vão surgindo episódios que envolvem deputados, dirigentes e figuras de relevo daqueles que juravam representar a pureza da política. Uns confrontados com suspeitas judiciais, outros envolvidos em comportamentos incompatíveis com a imagem de rigor que proclamavam, outros ainda afastados em circunstâncias pouco edificantes. Afinal, a natureza humana não parece distinguir cores partidárias.
Talvez porque a corrupção, a falta de ética, o abuso de confiança ou a simples fragilidade do carácter nunca precisaram de cartão de militante, não pertencem à esquerda nem à direita, não conhecem bandeiras, instalam-se onde encontram oportunidade.
Há uma diferença importante entre denunciar problemas e construir a ilusão de que basta substituir umas pessoas por outras para que esses problemas desapareçam. A História demonstra precisamente o contrário. Sempre que alguém se apresenta como a única solução para todos os males, convém guardar uma saudável dose de desconfiança. As democracias fortalecem-se através do escrutínio permanente, não da veneração de supostos salvadores.
A ironia é que aqueles que fizeram da superioridade moral a sua principal bandeira acabam frequentemente prisioneiros dessa mesma bandeira, porque quem sobe ao púlpito para dar lições de ética tem de aceitar que será julgado com uma severidade proporcional ao discurso que escolheu.
Portugal não precisa de messias políticos, precisa sim, de governantes competentes, de instituições fortes, de justiça célere e de cidadãos exigentes. Precisa menos de slogans e mais de resultados, menos de indignação encenada e mais de responsabilidade, menos de cartazes e mais de exemplo.
No fim de contas, talvez a pergunta não seja quem quer salvar Portugal.
A verdadeira questão é esta:
– Quando aqueles que afirmam ser diferentes acumulam os mesmos casos, os mesmos escândalos e as mesmas fragilidades que apontam aos restantes, com que autoridade moral podem continuar a apresentar-se como diferentes dos partidos que tanto criticam?


