OpiniãoMundial 2026: mais países, menos sono, a mesma ilusão

Mundial 2026: mais países, menos sono, a mesma ilusão

Artigo de José Rosa, Deputado Municipal pelo TB-Todos Barcelos.

© José Rosa

O Mundial de 2026 chega com dimensões de lista telefónica antiga: quase meia centena de seleções, mais de 100 jogos e uma coleção de países que, para muitos, só existem quando passam no rodapé do telejornal. O mais curioso nem é o número, é a mistura. No mesmo relvado podem cruzar-se seleções de países como Irão, Iraque, Catar, Arábia Saudita, Jordânia, Egipto ou até a RD Congo, geografias onde a realidade anda muitas vezes mais perto do conflito do que do espetáculo. E, de repente, estão todos ali, alinhados para o hino, como se o mundo fosse um sítio simples de explicar.

O futebol tem destas coisas, inventa uma espécie de diplomacia paralela. Durante noventa minutos, as tensões resumem-se a faltas, foras de jogo e discussões com o árbitro. Em vez de negociações intermináveis, há cartões amarelos, em vez de sanções, há descontos, e quando tudo corre mal, entra o VAR, essa entidade quase divina que decide destinos com linhas milimétricas e pouca paciência para dramas humanos.

Para quem está em Portugal, no entanto, a questão não é geopolítica. É fisiológica pois alguns jogos calham a horas que desafiam qualquer rotina minimamente saudável. Uma da manhã, duas da manhã… horários perfeitos para repensar a vida, não para ver um empate morno.

O país adapta-se com toda a naturalidade. Cafés abrem quando deviam estar fechados, há transmissões improvisadas em telemóveis presos à parede, e instala-se um acordo silencioso: ninguém vai dormir o suficiente, mas ninguém vai admitir isso no dia seguinte. É quase um pacto nacional.

E depois há as personagens de sempre. O otimista que só ia ver a primeira parte e acaba a discutir lances às três da manhã. O estratega que desenha o caminho até à final num guardanapo, com uma confiança que faria inveja a qualquer selecionador. O pessimista profissional que transforma cada jogada num cenário de colapso iminente. E aquele que vive a fase de grupos com uma intensidade que nem as finais conseguem replicar.

O dia seguinte tem um ambiente próprio. Reuniões rápidas, silêncios prolongados, café em doses industriais. Ninguém precisa de perguntar como foi o jogo, está tudo na cara das pessoas.

Portugal entra nesta história como sempre: com talento, expectativa e aquela montanha-russa emocional que já faz parte do pacote. Somos capazes do melhor e, com igual facilidade, complicamos o que parecia resolvido. Não é propriamente uma estratégia, mas é coerente com a nossa identidade.

A esperança por cá funciona de forma quase automática. Dois bons momentos e já se fazem contas à final. Dois erros e começa a busca por explicações quase académicas para o desastre, maquina de calcular em punho, e  pesquisar a ver se há uma repescagem secreta que a FIFA escondeu no regulamento, tipo: ” o melhor quarto classificado entre os segundos melhores terceiros que tenham marcado mais golos de cabeça na primeira parte, em dias ímpares e com vento inferior a 10 km/h… nunca se sabe.” É um ciclo conhecido, mas ninguém quer sair dele.

No fim, tudo se resume ao mesmo de sempre, ou seja, queremos que Portugal ganhe, porque durante uns dias isso muda o humor coletivo. Dá-nos um certo orgulho, uma energia que não se explica muito bem, mas sente-se.

Se a bola entra, esquece-se o sono, o trabalho e o resto. Se não entra, fica a promessa do próximo jogo, do próximo torneio, do próximo plano rabiscado num guardanapo. E, claro, a  “jola” fesquinha a estalar,  com tremoço ao lado. Isso, pelo menos, continua infalível.

PARTILHE A NOTÍCIA

LEIA TAMBÉM

PUBLICIDADE

Últimas Notícias

POPULARES