OpiniãoQue sociedade é esta em que nos estamos a tornar?

Que sociedade é esta em que nos estamos a tornar?

Artigo de Paulo Veiga.

© Paulo Veiga

Há perguntas que incomodam. Perguntas que nos obrigam a olhar para o espelho da sociedade e a questionar aquilo que vemos refletido. Uma dessas perguntas é simples, mas profundamente perturbadora:

– Que sociedade é esta em que nos estamos a tornar?

Vivemos uma época paradoxal. Nunca a Humanidade teve tantos meios para comunicar, e nunca esteve tão distante de si própria. Nunca tivemos tanta informação disponível, e nunca parecemos tão perdidos quanto ao essencial. Nunca falámos tanto sobre amor, empatia e inclusão, e nunca fomos tão incapazes de olhar verdadeiramente para o sofrimento humano que nos rodeia.

Assistimos, silenciosamente, a uma transformação cultural que merece reflexão.

Hoje, muitas pessoas chamam “filhos” aos seus animais de companhia. Celebram os seus aniversários, vestem-nos, levam-nos a spas, compram-lhes roupas de luxo, organizam sessões fotográficas e criam perfis nas redes sociais onde exibem cada momento da sua vida. Atenção, não há nada de errado em amar um animal, pelo contrário, o respeito pelos animais é um sinal de civilização.

O problema começa quando a afeição legítima se transforma numa substituição da própria condição humana, quando um cão ou um gato passam a ocupar emocionalmente o lugar que outrora era reservado aos filhos, aos pais, aos irmãos, aos amigos ou aos vizinhos, talvez não estejamos apenas perante uma demonstração de carinho, talvez estejamos perante um sintoma de uma sociedade cada vez mais solitária, de uma geração que aprendeu a relacionar-se sem correr riscos emocionais. Porque um animal nunca nos contradiz, não nos abandona por discordar das nossas ideias, não nos confronta com os nossos defeitos, nem nos exige negociações complexas, perdão, crescimento ou maturidade emocional.

As relações humanas, essas sim, são difíceis, exigem paciência, tolerância, renúncia ao ego, capacidade de lidar com a diferença.

Talvez por isso muitos estejam, consciente ou inconscientemente, a fugir delas.

Vivemos numa sociedade onde se multiplicam campanhas pelos direitos dos animais, isso é positivo, mas onde, simultaneamente, milhares de idosos morrem na solidão, esquecidos pelos próprios familiares.

Uma sociedade que se indigna, com razão, perante o abandono de um cão, mas que permanece indiferente perante o abandono de um pai num lar, que recolhe fundos para animais abandonados, mas que passa diariamente por sem-abrigo sem sequer lhes dirigir um olhar.

Não se trata de escolher entre amar pessoas ou amar animais,trata-se de perceber a inversão de prioridades que parece estar a acontecer.

O ser humano está a perder centralidade na própria Humanidade.

Estamos a assistir à normalização de uma realidade onde há quem conheça melhor os hábitos do seu animal do que os sonhos dos seus filhos, quem passe horas a fotografar o seu cão para as redes sociais, mas não encontre dez minutos para ouvir verdadeiramente o companheiro, a esposa, o marido ou os pais. E talvez a questão mais preocupante não seja sequer esta, talvez a questão seja a razão pela qual isto acontece.

As sociedades modernas promoveram uma ideia de felicidade profundamente individualista. Tudo gira em torno do “eu”, o meu bem-estar, as minhas emoções, as minhas necessidades, a minha realização pessoal. Mas o amor verdadeiro nunca foi sobre o “eu”, foi sempre sobre o “nós”.

Quando uma cultura deixa de valorizar o compromisso, a família, a comunidade e a responsabilidade partilhada, procura inevitavelmente formas mais simples, mais previsíveis e menos exigentes de preencher os seus vazios emocionais. Os animais oferecem amor, mas não substituem a riqueza da experiência humana, o abraço de um filho, a conversa com um amigo, a sabedoria de um pai, a cumplicidade de um avô, a responsabilidade de educar uma criança e contribuir para o futuro da sociedade.

Nenhuma civilização sobrevive apenas com conforto emocional, sobrevive através da transmissão de valores, da educação, da família, da solidariedade e da continuidade entre gerações.

E é precisamente aqui que devemos refletir.

Quando uma sociedade começa a investir mais energia emocional em relações que não exigem crescimento do que naquelas que o exigem, talvez esteja a perder algo fundamental, a capacidade de ser verdadeiramente humana.

Não se trata de condenar quem ama os seus animais, até porque o amor é sempre uma força positiva.

Mas é legítimo perguntar:

– Será que estamos a humanizar os animais porque estamos a deixar de humanizar as pessoas?

– Será que estamos a procurar nos animais o afeto que deixámos de construir entre nós?

– Será que a solidão moderna está a ser mascarada por uma falsa sensação de companhia?

E, acima de tudo, será que estamos a educar as próximas gerações para cuidar da Humanidade ou apenas para cuidar de si próprias?

As respostas podem ser incómodas, mas as sociedades não evoluem quando evitam perguntas difíceis, talvez uma das mais importantes do nosso tempo seja precisamente esta:

– Estamos a amar mais os animais… ou estamos simplesmente a amar menos as pessoas?

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