OpiniãoCoragem, essa palavra esquecida

Coragem, essa palavra esquecida

Artigo de Marta Cerqueira Gonçalves, advogada e membro eleito da Assembleia Municipal de Braga Amar e Servir Braga.

© Marta Cerqueira Gonçalves

Há manhãs em que a política parece começar muito antes das reuniões formais. Começa na rua, no café, na praça, no cumprimento rápido entre pessoas que se conhecem há anos e que, mesmo sem o dizerem, carregam consigo opiniões sobre o que está bem e o que está por fazer.

É nesse quotidiano discreto que muitas vezes se forma a verdadeira perceção da vida pública. Antes das atas, antes das intervenções, antes dos discursos.

Durante muitos anos observei este mundo como cidadã. Acompanhava as notícias locais, assistia às discussões públicas, concordava com algumas decisões, discordava de outras e, como tantos, perguntava-me porque demoravam tanto certas mudanças que pareciam tão evidentes. Via a praça, mas via-a de fora.

A vida levou-me entretanto por diferentes caminhos profissionais. A advocacia ensinou-me que a realidade raramente cabe numa única versão dos factos. A auditoria habituou-me a procurar as causas para lá das aparências. Mais recentemente, o exercício de funções como membro da assembleia municipal permitiu-me entrar nesse espaço que antes observava à distância. E foi nessa passagem que comecei a reparar numa ausência que me inquieta.

Contrariamente ao que tantas vezes se diz, não me parece que faltem ideias na política. Em muitos casos, os problemas são conhecidos, as necessidades estão identificadas e as soluções são discutidas. O que frequentemente parece faltar é outra coisa: coragem.

Não a coragem dos grandes acontecimentos que entram nos livros de História. Nem a dos gestos que se tornam símbolos. Refiro-me à coragem discreta dos dias comuns. À coragem de dizer aquilo em que se acredita quando seria mais confortável permanecer em silêncio. À coragem de assumir uma posição quando todos aguardam para ver qual será o sentido dominante. À coragem de decidir.

Vivemos num tempo curioso. Nunca tivemos tantos meios para comunicar e, no entanto, parece existir um receio crescente de errar em público. Cada palavra é escrutinada. Cada opinião é julgada em tempo imediato. Cada decisão é comentada antes mesmo de produzir efeitos.

Talvez por isso a prudência, que é uma virtude necessária, se confunda tantas vezes com medo. A prudência ajuda-nos a pensar antes de agir. O medo impede-nos de agir depois de pensar.

Ao longo destes meses, tenho observado situações em que todos reconhecem a existência de um problema, em que todos o identificam com clareza, mas em que poucos estão dispostos a promover a sua resolução. Não por falta de capacidade, mas porque decidir implica exposição. Implica crítica. Implica o risco de desagrado.

E é precisamente nesse ponto que a coragem se torna essencial.

Os cidadãos percebem isto com uma clareza muitas vezes silenciosa. Talvez não o verbalizem desta forma, mas reconhecem quando alguém fala por convicção e quando fala por conveniência. Reconhecem quando uma decisão nasce de uma ideia assumida e quando nasce apenas da necessidade de evitar conflito. E é nessa perceção, discreta mas constante, que se constrói ou se fragiliza a confiança nas instituições.

A democracia não exige perfeição. Exige autenticidade. Exige coerência. Exige responsabilidade. Exige, sobretudo, a capacidade de assumir escolhas e responder por elas.

Continuo a acreditar profundamente na política local. É nela que a democracia ganha corpo e proximidade. É nela que os problemas deixam de ser abstratos e passam a ter rosto, nome e lugar. É nela que as decisões se refletem na rua onde vivemos, na escola, na associação da nossa terra ou no quotidiano das nossas comunidades.

Talvez seja por isso que a coragem aqui assume um peso particular. Não a coragem ruidosa dos discursos, mas a coragem tranquila de quem escuta, de quem discorda com respeito, de quem admite quando erra e de quem decide quando é mais fácil não decidir.

Porque as comunidades não avançam apenas com ideias. Avançam quando existe a coragem necessária para transformar convicções em ação. E talvez seja dessa coragem discreta, tantas vezes invisível mas essencial, que mais precisamos na vida pública dos nossos dias.

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