
Vivemos numa época em que a palavra “Democracia” é repetida até à exaustão, é invocada pelos governos, partidos políticos, comentadores, meios de comunicação social e pelas instituições internacionais. Fala-se em democracia como quem fala de uma verdade absoluta, de um sistema perfeito, de uma conquista definitiva da humanidade.
Mas será que a democracia existe mesmo? Se existe, onde está?
A pergunta pode parecer provocatória. Afinal, vivemos em países onde votamos, onde existem eleições periódicas, onde há parlamentos e constituições. Contudo, talvez seja precisamente aí que reside o maior equívoco do nosso tempo, confundimos o acto de votar com a verdadeira democracia.
A democracia nasceu, na sua essência, como o governo do povo, não o governo de alguns em nome do povo, de elites que falam em nome do povo, de estruturas partidárias que se apropriam da vontade popular. O ideal democrático assentava na participação activa dos cidadãos na construção da vida colectiva.
Mas olhemos à nossa volta:
– Quantos cidadãos participam realmente nas decisões fundamentais que afectam as suas vidas?
– Quem decide o rumo da economia?
– Quem define as políticas fiscais?
– Quem estabelece as prioridades do investimento público?
– Quem controla os mercados financeiros?
– Quem influencia os meios de comunicação social?
– Quem determina, muitas vezes, as agendas políticas?
As respostas a todas estas questões, raramente é o povo.
O cidadão comum é chamado a pronunciar-se de quatro em quatro anos, entre eleições, torna-se sobretudo espectador, observa debates que não controla, assiste a decisões que não toma e suporta consequências que não escolheu.
Chamamos democracia a este sistema porque nos habituámos a fazê-lo, mas a verdade é que muitos dos mecanismos fundamentais de decisão encontram-se hoje afastados do alcance da maioria das pessoas.
A própria política transformou-se num produto.
Os partidos vendem promessas como empresas vendem marcas, os candidatos são trabalhados por especialistas em comunicação, as campanhas eleitorais são desenhadas para gerar emoções, não necessariamente para promover reflexão.
O cidadão tornou-se consumidor político, escolhe entre opções previamente seleccionadas por estruturas que raramente controla, depois regressa à sua vida, convencido de que participou plenamente na governação do país.
Mas terá participado? Ou terá apenas legitimado um sistema previamente montado?
A questão torna-se ainda mais inquietante quando observamos a influência crescente dos grandes grupos económicos.
Num mundo globalizado, muitos governos parecem possuir menos poder do que grandes multinacionais, empresas que movimentam capitais superiores ao PIB de muitos países e conseguem influenciar legislação, condicionar políticas públicas e moldar comportamentos sociais.
Quem governa realmente?
O voto popular ou o poder económico?
A democracia ou os mercados?
A resposta não é simples. Mas a pergunta é inevitável.
Talvez o maior triunfo dos sistemas modernos tenha sido convencer os cidadãos de que são livres enquanto limitam progressivamente os espaços de verdadeira liberdade.
Somos livres para escolher produtos, entretenimento, expressar opiniões nas redes sociais.
Mas somos realmente livres para influenciar as grandes decisões colectivas? Ou apenas livres dentro dos limites previamente definidos por outros?
O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau alertava para este perigo quando afirmava que o povo inglês julgava ser livre porque elegia os seus representantes, mas que, após as eleições, voltava a ser servo.
Passaram-se séculos.
A reflexão continua actual.
Talvez a democracia moderna tenha evoluído para uma espécie de ritual, um conjunto de procedimentos formais que preservam a aparência da participação popular, enquanto as estruturas profundas do poder permanecem relativamente intocáveis.
Seria injusto concluir que a democracia não existe de todo.
Talvez ela exista.
Não como realidade consumada, mas como ideal, como horizonte, um projecto inacabado.
A verdadeira democracia talvez não seja aquilo que temos, talvez seja aquilo que ainda procuramos.
Existe sempre que um cidadão questiona, recusa aceitar verdades impostas, sempre que uma comunidade se organiza para resolver os seus próprios problemas, sempre que o poder é escrutinado, sempre que a liberdade de pensamento sobrevive à pressão do conformismo.
A democracia não vive nos discursos,vive na consciência crítica, na capacidade de pensar. Não vive apenas nas urnas e sim na coragem de participar.
O problema do nosso tempo não é apenas a corrupção política, a influência económica ou a manipulação mediática.
O problema maior talvez seja a resignação.
Uma sociedade que deixa de questionar deixa de ser verdadeiramente democrática.
Uma sociedade que aceita tudo sem reflexão transforma-se numa multidão obediente.
E uma multidão obediente pode ter eleições, pode ter parlamentos, partidos políticos,
até ter constituições, mas dificilmente terá democracia.
Por isso, a pergunta permanece.
A democracia existe mesmo?
Talvez exista em pequenas manifestações de cidadania consciente, em momentos raros de participação genuína ou apenas como uma promessa ainda por cumprir. Mas se quisermos encontrá-la, provavelmente não devemos procurá-la nos palácios do poder, devemos procurá-la dentro de cada cidadão que continua a pensar por si próprio.
Porque a democracia não morre quando desaparecem as eleições, morre quando desaparecem os cidadãos.
E talvez a questão mais importante não seja onde está a democracia,a verdadeira questão talvez seja:
– Onde estamos nós?


