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Estão a cair pássaros do céu

© PAN

Esta semana o mundo ficou chocado com as notícias que chegam da Índia: estão a cair pássaros do céu. Esta é uma consequência da onda de calor que o país vive, durante a qual a temperatura do solo já atingiu os 62ºC.

Este fenómeno, que já dura há semanas, não é único e será cada vez mais frequente. É um impacto previsto das alterações climáticas para o qual cientistas e ativistas têm alertado, mas que a maioria do mundo, incluindo muitos políticos, continuam a ignorar.

Este nível de temperaturas acaba com a produtividade no trabalho, destrói a produção alimentar, causa secas extremas, mata um número incontável de animais, aumenta o risco e gravidade de doenças e causa a morte de pessoas que não têm condições para se arrefecer. E é isto que ignoramos, quando nos recusamos a assumir o combate às alterações climáticas como primeira prioridade política.

Do ponto de vista da justiça social, a população indiana é ainda mais injustiçada. Historicamente, a Índia apenas contribuiu para 3% das emissões de gases com efeitos de estufa ao nível mundial. Na tabela das emissões por pessoa, os habitantes da Índia estão abaixo de todos os países europeus. Na verdade, nem entram no top 50 mundial, emitindo apenas 1,91 toneladas de CO2 por ano. Em comparação, cada português emite 4,86, cada alemão 9,44 e cada americano 15,52 toneladas.

No seu mais recente relatório, o IPCC alerta que as alterações climáticas são essencialmente causadas pelos 10% mais ricos do planeta, onde se inclui a população dos chamados “países desenvolvidos” .

Isto para demonstrar que a responsabilidade é, essencialmente, dos países ocidentais, aos quais devemos agora adicionar a China que é responsável histórica por 12% das emissões (embora a pegada per capita seja apenas de 7,38 toneladas por habitante).

Sem descurar o papel das autoridade Indianas, ou de qualquer outro país no planeamento para a adaptação às alterações climáticas, são estes dados que nos fazem perceber que a missão dos países que cresceram à custa da poluição é não só de se descarbonizarem, mas também garantir que o resto do mundo nos acompanha, com qualidade de vida.

No entanto, ainda não é isto que está a acontecer. Apesar das emissões de gases com efeitos de estufa estarem a diminuir nos países em desenvolvimento, a sua pegada ecológica, fomentada pela produção e consumo excessivos, continua a aumentar. Ano após ano, o Dia da Sobrecarga da Terra assinala-se cada vez mais cedo. Esta é a data a partir da qual os países esgotam todos os recursos naturais que a terra consegue renovar num ano e começam a viver a crédito, às custas das futuras gerações ou de outros países.

Em Portugal, passamos este dia no sábado, dia 7 de maio, seis dias mais cedo do que em 2021.

É por isso que precisamos de agir, já! A transição energética, transição alimentar, transição no modo de consumo e produção, bem como a transição na mobilidade não podem esperar mais. Os nossos ecossistemas, a população dos países emergentes e, não se enganem, dos países desenvolvidos, não podem esperar mais.

Precisamos de coragem política, caso contrário não só teremos cada vez mais pássaros a cair do céu, como humanos a cair no chão.

Artigo de opinião de Rafael Pinto do PAN.

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