
A instabilidade no Médio Oriente voltou a colocar o mundo em alerta — e desta vez com serias implicações que vão muito, mas muito além da região. O recente ataque ao Irão conduzido por Israel com total apoio dos Estados Unidos, não foi apenas mais um episódio num conflito prolongado: foi um abalo tremando nas fundações do comércio global, sobretudo no setor energético.
Durante décadas, a globalização criou uma ilusão de estabilidade permanente. Cadeias de abastecimento super eficientes, rotas marítimas previsíveis , seguras e sobretudo energia relativamente acessível tornaram-se garantias quase invisíveis do nosso quotidiano. Porém , bastou um novo foco de tensão numa zona crítica para expor aquilo que sempre esteve presente, mas raramente discutido e que raramente queríamos ver : a fragilidade estrutural do comércio mundial.
O impact é brutal, a começar pelo frete marítimo assistimos a um aumento significativo dos custos de transporte . Os fretes dispararam em flexa , refletindo o risco crescente associado às principais rotas comerciais. Estávamos a falar de um aumento de 300 a 400%, assim como o aparecimento de taxas são imputadas pelos armadores ao cliente dia após dia. Isto não é um detalhe técnico — é um fenómeno com impacto direto na vida de todos nós. Para ter uma ideia, cerca de 80% do comércio global depende do transporte marítimo. Praticamente tudo o que temos em casa — desde alimentos a tecnologia — chegou, em algum momento, por via marítima, num porta contentores.
Este conflito veio colocar a nu um conceito essencial para compreender a economia global: os chamados “chokepoints”, ou pontos de estrangulamento. Estes são locais geográficos estratégicos por onde passa uma parte significativa do comércio mundial. Quando um deles é perturbado, todo o sistema sente o impacto.
Entre os principais chokepoints destacam-se o Canal de Suez,no Egipto o Canal do Panamá, na América Central o Estreito de Malaca, no sudeste asiático o Estreito de Gibraltar na Europa do Sul , acima de todos neste contexto, temos o Estreito de Ormuz, no golfo pérsico . Cada um deles desempenha um papel crucial na circulação de mercadorias e estabilidade do c comercio mundial . Recorde-se, por exemplo, o encalhe do navio Ever Given no Canal de Suez em 2021 — um incidente que foi suficiente para bloquear uma das artérias mais importantes do comércio mundial durante dias, gerando perdas económicas significativas, e um super impacto no comercio mundial.
No entanto, há uma diferença fundamental entre estes pontos e o Estreito de Ormuz. Enquanto os restantes são maioritariamente utilizados para o transporte de bens transformados — como produtos industriais e matérias-primas já processadas — Ormuz é um corredor vital para algo ainda mais essencial: a energia, aquilo que move o nosso mundo.
É por este estreito que passa uma parte substancial do petróleo consumido globalmente. Além disso, é também uma rota crítica para o gás natural liquefeito, especialmente proveniente do Qatar, um dos maiores exportadores mundiais de LNG. Portanto perturbação nesta região tem efeitos imediatos nos preços da energia, que por sua vez influenciam toda a economia global — desde a produção industrial até ao custo de vida das famílias.
Geograficamente, o Estreito de Ormuz é surpreendentemente estreito: estamos a falar de 12 quilómetros na sua zona mais crítica. De um lado, a Republica Islâmica do Irão , com os seus Aiatolas , que exerce uma posição dominante; do outro, encontram-se o riquíssimo Emirados Árabes Unidos. Embora seja considerado uma via de águas internacionais, a sua vulnerabilidade é mais que evidente. A proximidade entre margens e a tensão política constante tornam-no num dos pontos mais sensíveis do planeta.
E não é de hoje que Ormuz tem importância estratégica. Já no século XVI, Afonso de Albuquerque reconheceu o seu valor, sem dúvida um tremendo visionário, um exemplo do líder que Portugal teve no passado. Ao conquistar a ilha de Ormuz, o Império Português garantiu um ponto de controlo fundamental sobre as rotas comerciais entre o Oriente e o Ocidente. Na altura, o interesse centrava-se nas especiarias — o petróleo como hoje o conhecemos nem existia. No entanto, o princípio era o mesmo: quem controla Ormuz, influencia o comércio global, e portanto acumula riqueza e poder.
Essa visão estratégica mantém-se atual. A diferença é que, hoje, as consequências são exponencialmente maiores. A economia global está muito mais interligada e dependente de fluxos contínuos de energia e bens. Uma interrupção em Ormuz não seria apenas um problema regional — seria um choque sistémico.
É, por isso, legítimo questionar até que ponto o mundo está preparado para lidar com um eventual bloqueio prolongado deste estreito. As alternativas são limitadas e, na maioria dos casos, mais caras e menos eficientes. Oleodutos podem aliviar parcialmente a pressão, mas não conseguem substituir totalmente o volume transportado por via marítima.
Além disso, este cenário levanta uma questão mais profunda: até que ponto a globalização atual é sustentável perante riscos geopolíticos crescentes? A concentração de rotas em pontos críticos torna o sistema altamente eficiente — mas também perigosamente vulnerável.
O impacto de uma escalada no Estreito de Ormuz não se limitaria ao aumento do preço dos combustíveis. Teria efeitos em cadeia: inflação global, aumento dos custos de produção, instabilidade nos mercados financeiros e, potencialmente, desaceleração económica em várias regiões do mundo.
Neste contexto, a Europa encontra-se numa posição super delicada. Isto é dependente de importações energéticas e já fragilizada por crises recentes, uma nova disrupção poderá agravar ainda mais a sua situação económica. Portugal, embora periférico, não está imune — pelo contrário, sendo uma economia aberta, sente rapidamente os efeitos de choques externos, exposição essa que vai abalar certos sectores da nossa industria, afinal a energia trata-se de uma despesa que consome em muito um orçamento de uma empresa.
Mais do que um episódio isolado, este momento deve ser visto como um alerta. A estabilidade do comércio global não é garantida — depende de equilíbrios políticos frágeis e de geografias altamente sensíveis.
O que está em causa não é apenas um conflito regional, mas a própria arquitetura do sistema económico mundial. E isso obriga a uma reflexão séria sobre diversificação de rotas, segurança energética e resiliência das cadeias de abastecimento.
Dizer que o impacto de um eventual fecho total do Estreito de Ormuz e o seu prolongamento por mais dias e semanas seria devastador não é um exagero — é, muito provavelmente, uma constatação realista.


