
A greve geral de quarta-feira foi uma aula prática de como um país consegue estar parado e em movimento ao mesmo tempo, indignado, mas descontraído, reivindicativo… e ligeiramente bronzeado.
A greve, em teoria, é um instrumento de luta. Uma pausa coletiva para fazer barulho, pressionar decisões, e chamar a atenção.
Ontem verificaram-se tumultos em frente à Assembleia da República, bastonadas, garrafas a voar, contentores a arder. Um cenário clássico, com a dose de tensão que dá corpo à palavra protesto. Todavia, tudo isso foi ofuscado por aquele momento que resume tudo. A senhora que, com uma naturalidade desarmante, explicou que fez greve… e foi para a praia com a neta.
Os defensores dirão que a greve é um direito e que cada um a exerce como entende. E têm razão. Os críticos dirão que assim se esvazia o impacto e se banaliza o gesto. E também não estão errados. No meio, fica esta espécie de contradição, onde ninguém perde a razão… e ninguém a leva totalmente.
A greve vive de adesão visível. Mas também de intenção. E, ontem, a intenção parecia, em muitos casos, dividida entre o protesto e o descanso. Uma espécie de greve híbrida, meio reivindicação, meio escapadinha.
Nada disto é novo, mas raramente foi tão bem simbolizado. A imagem da senhora na praia não ridiculariza a greve. Expõe, isso sim, um país que se posiciona à sua maneira. Nem totalmente militante, nem totalmente indiferente. Um país que, quando para, não fica necessariamente quieto.
A questão aqui é a seguinte: quando o protesto se torna comodo, ainda é protesto ou passa a ser rotina? A resposta não e simples, até porque o mesmo gesto pode ser lido de formas opostas. Para uns, é banalização. Para outros, é normalidade democrática.
No fim, fica a imagem. Não dos números, não das percentagens, não dos comunicados. Mas de uma senhora na praia, com a neta, tranquila, a cumprir o seu direito à greve da forma mais portuguesa possível.


