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Greve geral: o paradoxo nacional entre a luta, a toalha e o guarda-sol

Artigo de José Rosa - Deputado Municipal do TB-TODOS BARCELOS.

© José Rosa

A greve geral de quarta-feira foi uma aula prática de como um país consegue estar parado e em movimento ao mesmo tempo, indignado, mas descontraído, reivindicativo… e ligeiramente bronzeado.

A greve, em teoria, é um instrumento de luta. Uma pausa coletiva para fazer barulho, pressionar decisões, e chamar a atenção.

Ontem verificaram-se tumultos em frente à Assembleia da República, bastonadas, garrafas a voar, contentores a arder. Um cenário clássico, com a dose de tensão que dá corpo à palavra protesto. Todavia, tudo isso foi ofuscado por aquele momento que resume tudo. A senhora que, com uma naturalidade desarmante, explicou que fez greve… e foi para a praia com a neta.

De repente, temos ali condensado um país inteiro. Um país que protesta, mas também aproveita, um país que reivindica, mas não dispensa um dia de sol, um país que entra em greve, mas sai de casa com protetor solar.

Os defensores dirão que a greve é um direito e que cada um a exerce como entende. E têm razão. Os críticos dirão que assim se esvazia o impacto e se banaliza o gesto. E também não estão errados. No meio, fica esta espécie de contradição, onde ninguém perde a razão… e ninguém a leva totalmente.

A greve vive de adesão visível. Mas também de intenção. E, ontem, a intenção parecia, em muitos casos, dividida entre o protesto e o descanso. Uma espécie de greve híbrida, meio reivindicação, meio escapadinha.

Nada disto é novo, mas raramente foi tão bem simbolizado. A imagem da senhora na praia não ridiculariza a greve. Expõe, isso sim, um país que se posiciona à sua maneira. Nem totalmente militante, nem totalmente indiferente. Um país que, quando para, não fica necessariamente quieto.

A questão aqui é a seguinte: quando o protesto se torna comodo, ainda é protesto ou passa a ser rotina? A resposta não e simples, até porque o mesmo gesto pode ser lido de formas opostas. Para uns, é banalização. Para outros, é normalidade democrática.

O risco é que, quando tudo cabe em tudo, quando a greve se transforma em passeio, quando o protesto convive demasiado bem com o conforto, corre-se o perigo de diluir a mensagem. Não a eliminar, mas torná-la menos nítida, mais difusa,

No fim, fica a imagem. Não dos números, não das percentagens, não dos comunicados. Mas de uma senhora na praia, com a neta, tranquila, a cumprir o seu direito à greve da forma mais portuguesa possível.

No meio disto tudo, sobra uma evidência: quando até o protesto cabe debaixo de um guarda-sol, talvez quem esteja realmente à sombra… seja o próprio impacto.

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