
Mal terminou o primeiro jogo de Portugal no Mundial e já surgiram os habituais emocionados críticos de serviço. Para alguns, o empate diante da República Democrática do Congo foi imediatamente catalogado como um fracasso, uma vergonha ou uma demonstração de fragilidade da Seleção Nacional. Mas talvez seja precisamente essa visão arrogante e simplista que mereça ser criticada.
Existe uma tendência perigosa no futebol moderno, a de acreditar que as seleções mais mediáticas entram em campo já vencedoras, apenas porque possuem jogadores mais conhecidos, campeonatos mais visíveis ou maior tradição internacional. Como se os jogos fossem ganhos pelos nomes estampados nas camisolas e não pelos homens que entram em campo para competir.
A República Democrática do Congo não chegou ao Mundial por acaso, não recebeu um convite de cortesia nem ocupou uma vaga por benevolência da FIFA. Está presente porque conquistou esse direito dentro das quatro linhas, ultrapassando adversários, vencendo jogos e demonstrando qualidade suficiente para figurar entre as melhores seleções do planeta.
Mais ainda, o Congo possui atletas de enorme valor, muitos deles a competir nas principais ligas europeias e mundiais, jogadores habituados a enfrentar semanalmente alguns dos melhores futebolistas do mundo. Merecem respeito, merecem reconhecimento e, acima de tudo, merecem que se abandone a ideia ultrapassada de que certas seleções africanas existem apenas para servir de figurantes nas grandes competições.
O futebol mundial evoluiu, as diferenças entre seleções diminuíram drasticamente. Hoje, qualquer equipa que chega a uma fase final de um Campeonato do Mundo possui organização, qualidade técnica, capacidade física e preparação táctica. Quem continua a olhar para determinadas seleções com sobranceria demonstra, acima de tudo, desconhecimento da realidade actual do futebol.
Portugal continua a ser uma das grandes seleções do mundo. Tem talento, experiência e ambição para lutar pelos objetivos mais elevados, mas isso não significa que vá vencer todos os jogos com facilidade, nem significa que os adversários devam baixar a cabeça perante o nome de Portugal.
O empate com o Congo não deve ser analisado como uma humilhação. Deve ser encarado como aquilo que realmente foi, um jogo entre duas seleções que conquistaram legitimamente o direito de estar no Mundial e que procuraram alcançar o melhor resultado possível.
Talvez a verdadeira lição deste empate seja outra, o futebol continua a lembrar-nos que o respeito é um valor fundamental, respeito pelos adversários, pelo mérito e pelo trabalho de quem percorreu milhares de quilómetros, ultrapassou dificuldades imensas e chegou ao maior palco do futebol mundial.
Porque, no final, o Mundial não pertence apenas às seleções mais poderosas, pertence a todos aqueles que tiveram talento, coragem e competência para lá chegar.
E a República Democrática do Congo, gostem alguns ou não, pertence por inteiro a esse grupo.
Mas, para a frente Portugal.


