
Em política, como na vida, há uniões que soam a casamento de conveniência. A recente junção, aliança ou aquilo que queiram nomear do Partido Socialista com o movimento independente de José Macedo, é um desses casos em que a equação eleitoral parece ter suplantado a lógica democrática e, sobretudo, o princípio de isenção nas autarquias.
Recordemos: o movimento independente foi criado precisamente como alternativa, como resposta à necessidade de uma voz livre de amarras partidárias. Hoje, de forma quase irónica, a bandeira da independência rende-se ao abraço apertado do poder partidário. É como se um atleta olímpico jurasse que nunca competiria com “doping” e, na prova seguinte, entrasse no estádio com uma farmácia às costas. Mas nós sabíamos desde início que essa independência era fácil, porque o seu membro mais destacado era um ex-militante do PSD que queria ser Presidente de Junta.
Mas não fiquemos apenas pelo casamento súbito. O PS decidiu ainda dar um empurrão discreto, mas firme, a vários elementos da lista anterior, nomes que, goste-se ou não, tinham valor, garra e presença no combate político. Foram postos de parte como se fossem peões descartáveis, substituídos por rostos mais convenientes ou mais dóceis. A mensagem subliminar é clara: o mérito pesa pouco quando comparado com a geometria dos lugares. Aqueles que andaram quatro anos a lutar nas ruas pelo Partido Socialista ficaram pelo caminho, não foram escolhidos por aqueles que acham mais que vale uma publicação no Facebook que trabalho.
E aqui entra a comparação inevitável: a coligação Juntos por São Vicente/Juntos por Braga. Esta coligação, ao contrário da alquimia socialista-independente, manteve praticamente todos os seus elementos das autárquicas anteriores. Pode-se discordar das suas ideias, pode-se criticar o seu estilo, mas pelo menos há coerência, continuidade e respeito pelo trabalho feito. Não se atiram os soldados fora só porque a batalha mudou de cenário.
O que se passa com o PS é sintomático de uma doença antiga da política portuguesa: a tendência para transformar princípios em peças de decoração: bonitas no programa, mas fáceis de arrumar no sótão quando atrapalham os arranjos de ocasião.
Se o objetivo é ganhar a qualquer preço, então talvez seja hora de sermos sinceros e assumirmos: a política já não é a arte do possível, mas sim a ciência do conveniente. E, nesse jogo, os cidadãos ficam sempre em último lugar, espectadores de um teatro onde os atores mudam de máscara, mas continuam a representar a mesma peça.
No final, resta-nos a sátira: quem ontem gritava “independência!” hoje sussurra “aliança!”. E quem ontem valorizava quadros de combate, hoje troca-os por molduras de parede.
A única certeza é que os eleitores não são ingénuos e, mais cedo ou mais tarde, apresentam a conta. As guerras ganham-se com os soldados e, só a coligação Juntos por Braga é que os ofereceu à freguesia de São Vicente.
Artigo de Paulo Veiga.


