
Imagine, caro leitor, que, à frente da sua casa, abre um novo restaurante. Movido pela curiosidade, decide experimentá-lo. Rapidamente percebe que o atendimento é mau, a comida chega tarde e fria, ou pior ainda, por vezes nem chega, sem qualquer explicação. Na altura de pagar a conta, já relativamente enfurecido e decidido a não voltar, explica ao empregado que o serviço foi péssimo. Este, já com a resposta preparada, exclama: “Calme, senhor (ou senhora)!. Para compensar essas deficiências, aqui o serviço é gratuito.”
Agora dentro deste cenário hipotético (até porque, como sabemos, não há almoços grátis), questiono o leitor: face a esta oferta, passava a frequentar este restaurante, sabendo da sua gratuitidade? Arrisco-me a dizer que provavelmente não. Apenas passaria a poder usufruir gratuitamente de um serviço que continuava a ser deficiente.
Esta ideia – e por consequência, este dilema – tem sido uma vertente que tem ganho força um pouco por todo o país, principalmente nos grandes centros urbanos, quando falamos de transportes públicos. Aqui em Braga, uma das principais promessas do atual executivo é a gratuitidade dos passes dos TUB. No entanto, continuamos a viver numa cidade altamente refém dos carros, onde mesmo com o trânsito, não gastamos mais tempo na estrada do que gastamos à espera na paragem para uma deslocação de autocarro. Não é por ter um passe grátis que, magicamente, iremos chegar mais depressa ao nosso destino. Pelo contrário.
Aqui ao lado, no Porto, os transportes públicos passaram a ser gratuitos para os residentes do concelho. No entanto, os estudos do INE já mostraram que a gratuitidade atrai mais pessoas que caminham ou usam bicicletas, do que propriamente os condutores de carros. E quando já existem composições do Metro, nas horas de ponta, mal há espaço para respirar, aumentar o número de passageiros sem reforçar a oferta apenas contribuirá para veículos ainda mais cheios e maior pressão sobre o serviço.
Já a nível nacional, a nova “coqueluche” da CP é o Passe Ferroviário Verde (de qual eu próprio usufruo), que permite que, por apenas 20€ por mês, possamos circular na grande maioria dos comboios regionais, urbanos e intercidades do país. Mas a realidade dificilmente poderia ser mais evidente: num serviço nacional altamente deteriorado, com equipamentos antigos e comboios em decadência, com supressões e atrasos frequentes, o que estamos a fazer é colocar ainda mais passageiros nos mesmos comboios. Em vez de investirmos para os tornar melhores.
No fundo, a gratuitidade compreende-se (e incentiva-se) quando dirigida a quem não dispõe de meios económicos suficientes ou a grupos específicos, como jovens ou idosos. Agora quando a vemos como principal solução a seguir, por parte de municípios ou do próprio Estado, percebemos facilmente que as evidências nos levam para um sentido contrário: um serviço cada vez mais pressionado, com os mesmos problemas estruturais, e os mesmos números de carros na rua.
Porque tal como o restaurante grátis à porta de sua casa, o verdadeiro problema nunca foi o preço do almoço. Mas sim a qualidade do mesmo. E se continuarmos a confundir a qualidade com o preço, estaremos apenas a subsidiar a mediocridade.
P.S. Caso o leitor não tenha apreciado esta crónica, e sentiu que perdeu cinco minutos da sua vida, lembre-se: ela é gratuita.


