OpiniãoQue concelho querem os jovens de Braga?

Que concelho querem os jovens de Braga?

Artigo de Cristina Fontes, professora e membro eleito pelo Movimento Amar e Servir Braga.

© Cristina Fontes

Quando se fala em políticas de juventude, o debate centra-se quase sempre nos apoios, nos programas, nos eventos ou nos incentivos. 

Continuamos a conceber muitas políticas de juventude sem envolver verdadeiramente aqueles a quem elas se destinam. Os jovens acabam por ser recetáculos de decisões tomadas por outros, quando deveriam estar na origem da sua construção. Eles conhecem melhor do que ninguém os desafios da sua geração. Sabem o que significa procurar habitação a preços comportáveis, depender de transportes públicos pouco eficazes, conciliar estudos e trabalho, encontrar oportunidades de emprego qualificadas ou aceder à cultura, ao desporto e ao lazer. São também eles que decidirão se Braga será apenas a cidade onde estudaram ou o concelho onde escolherão viver, trabalhar e constituir família.

Todavia, falar dos jovens de Braga é reconhecer que não existe uma única realidade. Os desafios de quem vive no centro da cidade não são os mesmos de quem reside nas freguesias mais afastadas. Nestas, a menor oferta de transportes, a distância aos equipamentos municipais, a escassez de espaços de encontro e a reduzida programação cultural criam obstáculos adicionais à participação e à igualdade de oportunidades. Uma política de juventude que pretenda servir todo o concelho tem de começar por compreender estas diferenças.

Paradoxalmente, é muitas vezes nas freguesias que encontramos alguns dos melhores exemplos de cidadania ativa. Associações juvenis, culturais, recreativas, desportivas e sociais desenvolvem um trabalho extraordinário, quase sempre assente no voluntariado. Organizam festivais, promovem atividades culturais, preservam tradições, dinamizam projetos ambientais, desenvolvem ações solidárias e criam espaços de convivência que fortalecem as comunidades locais. São verdadeiras escolas de participação cívica, onde muitos jovens aprendem a liderar, a organizar projetos, a gerir recursos e a trabalhar em equipa. Valorizar este movimento associativo não é apenas investir na cultura ou no desporto, mas é, sobretudo, investir na formação de cidadãos mais responsáveis, mais participativos e mais comprometidos com o bem comum.

A democracia local oferece vários espaços onde qualquer cidadão pode fazer ouvir a sua voz. As assembleias de freguesia, as reuniões públicas do executivo municipal e as assembleias municipais existem precisamente para que os cidadãos possam apresentar propostas, colocar questões, escrutinar decisões e contribuir para a definição das políticas públicas.

Neste contexto, o Conselho Municipal de Juventude assume uma importância particular. Criado para representar os interesses da juventude e emitir parecer sobre as políticas municipais nesta área, este órgão pode desempenhar um papel muito mais relevante na aproximação entre os jovens e o poder local. Para isso, importa que mantenha uma ligação efetiva às associações juvenis, às escolas, às instituições de ensino superior e também aos muitos jovens que não pertencem a qualquer organização, mas que têm ideias, preocupações e vontade de contribuir para o futuro do concelho.

Ainda assim, é legítimo perguntar quantos jovens conhecem verdadeiramente o Conselho Municipal de Juventude. Quantos sabem que podem intervir numa assembleia de freguesia ou assistir e usar da palavra numa reunião pública da Câmara Municipal? Quantos acreditam que a sua participação pode influenciar uma decisão política? A existência de órgãos de participação é importante, mas, por si só, não garante uma participação efetiva.

Talvez tenha chegado o momento de dar um passo em frente. Porque não promover assembleias abertas de jovens em cada freguesia, envolvendo associações, escolas e cidadãos, para identificar problemas e construir propostas concretas? Porque não criar fóruns municipais dedicados a temas como a habitação, a mobilidade, a saúde mental, a cultura, o ambiente ou o empreendedorismo? Seria, igualmente, interessante estabelecer que as conclusões desses encontros fossem analisadas pelo Conselho Municipal de Juventude, discutidas pelo executivo e apresentadas à Assembleia Municipal, garantindo uma resposta pública às propostas formuladas.

Participar não pode significar apenas ser ouvido. Participar implica saber que as ideias apresentadas foram analisadas, discutidas e fundamentadamente aceites ou rejeitadas. Essa transparência fortalece a confiança nas instituições e aproxima os cidadãos da política.

Braga possui uma geração de jovens qualificada, criativa, empreendedora e profundamente empenhada na vida das suas comunidades. Muitos já lideram associações, organizam iniciativas culturais, praticam voluntariado, criam empresas ou desenvolvem projetos de inovação social. Ignorar esta capacidade de iniciativa seria desperdiçar um dos maiores recursos do concelho.

A melhor política de juventude não é aquela que oferece mais atividades nem a que anuncia mais medidas. É aquela que reconhece os jovens como cidadãos de pleno direito, capazes de pensar, propor, discordar e construir soluções para os desafios coletivos.

Se queremos que os jovens escolham Braga para viver, trabalhar e formar família, devemos começar por lhes dar um lugar à mesa onde se tomam as decisões. Não apenas como convidados ocasionais, mas como participantes ativos na construção do futuro.

Uma cidade que decide pelos seus jovens arrisca-se a vê-los partir, enquanto uma que decide com os seus jovens terá sempre mais condições para os fazer ficar.

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