OpiniãoPorque é que a Maçonaria preocupa tanto a política?

Porque é que a Maçonaria preocupa tanto a política?

Artigo de Paulo Veiga.

© Paulo Veiga

Poucas instituições geram tanta projeção imaginária, tantas teorias de bastidores e tanta leitura enviesada como a Maçonaria. Ao longo da história foi perseguida por monarquias absolutas, proibida por regimes totalitários, atacada por sectores religiosos e, ainda hoje, continua a ser observada com uma intensidade desproporcional quando comparada com outras associações privadas de natureza semelhante.

A pergunta, porém, merece ser colocada com mais rigor: – porque é que a Maçonaria inquieta tanto o campo político?

A resposta não é única e talvez não seja tão confortável como muitas narrativas simplificadas sugerem.

A Maçonaria não é um partido político, não concorre a eleições, não governa Estados, não legisla. É uma associação iniciática e simbólica que reúne indivíduos de origens ideológicas, religiosas e sociais muito diversas. Dentro de uma Loja podem coexistir pessoas que, fora dela, se enfrentam em debates políticos acesos ou até irreconciliáveis. Não existe uma disciplina partidária, nem uma linha programática comum que uniformize posições sobre a governação da sociedade.

E, ainda assim, a suspeita persiste.

Talvez porque a política, enquanto sistema de disputa pelo poder, tende a desconfiar de tudo aquilo que não consegue mapear, controlar ou instrumentalizar.

Os partidos operam na lógica da conquista e manutenção do poder, a maçonaria, pelo menos no plano ideal que proclama, opera na lógica da transformação interior do indivíduo. A política mede resultados em votos, influência e cargos, a maçonaria afirma medir progresso em termos de aperfeiçoamento moral, disciplina pessoal e capacidade de agir no mundo sem necessidade de reconhecimento público. São gramáticas diferentes da mesma realidade social e é precisamente essa diferença que gera fricção.

Há ainda um elemento decisivo, a opacidade relativa.

Numa era de exposição permanente, em que quase tudo é convertido em conteúdo público, qualquer espaço que preserve rituais, linguagem simbólica e momentos de reserva torna-se automaticamente suspeito aos olhos de uma cultura habituada à transparência total. Mas aqui convém fazer uma distinção essencial, o desconhecido não é, por definição, o oculto conspirativo, é apenas o não exposto.

E é precisamente essa confusão que alimenta grande parte do mito.

Uma família tem esferas privadas, uma empresa discute estratégias em reuniões fechadas, um tribunal delibera longe do público antes de proferir sentença, um governo negoceia antes de anunciar decisões. Em nenhum destes casos se conclui automaticamente a existência de uma conspiração. No entanto, quando se trata da Maçonaria, a mesma lógica raramente é aplicada com a mesma serenidade.

Há aqui um problema menos institucional e mais cultural, a tendência para preencher o desconhecido com narrativas de intenção.

É verdade que alguns maçons ocuparam, e ocupam, posições políticas relevantes. Mas isso, por si só, não constitui um argumento. A pertença a uma associação não elimina a responsabilidade individual nem transforma decisões pessoais em decisões colectivas. Um erro político não se torna mais grave por existir uma filiação associativa, nem essa filiação o torna mais legítimo, mas

ainda assim, o debate público tende a preferir atalhos interpretativos.

Quando um indivíduo identificado como maçom se envolve num caso polémico, a narrativa rapidamente se expande do particular para o colectivo. O comportamento de um passa a ser lido como sintoma de uma estrutura inteira, curiosamente, esse mesmo mecanismo raramente é aplicado com igual intensidade a clubes, universidades, empresas ou instituições religiosas, mesmo quando estas também têm membros envolvidos em escândalos.

Este desequilíbrio revela menos sobre a Maçonaria e mais sobre a forma como a sociedade constrói os seus “alvos simbólicos”.

Há também uma dimensão histórica que não pode ser ignorada.

Regimes autoritários sempre olharam para a Maçonaria com desconfiança, não necessariamente por aquilo que ela fazia, mas pelo que representava, liberdade de consciência, pluralidade de pensamento, igualdade simbólica entre os membros e recusa de submissão intelectual a uma autoridade única são princípios que entram em choque directo com qualquer projecto político baseado na uniformização do pensamento. O problema, portanto, não era apenas institucional, era epistemológico. A Maçonaria, enquanto espaço de formação simbólica do indivíduo, introduz uma ideia perigosa para o poder absoluto, a de que o cidadão pode pensar fora da estrutura oficial.

Isto não a torna imune à crítica, nem deveria.

Nenhuma instituição humana o é.

Sempre que um indivíduo utiliza a sua pertença para obter vantagens indevidas, influência ilegítima ou benefícios pessoais, não está a representar uma filosofia, mas a contradizê-la. O erro não reside na ideia de pertença, mas na sua instrumentalização, essa distinção é frequentemente ignorada no debate público, que prefere a generalização à análise.

Talvez o ponto mais incómodo seja este, a Maçonaria não é tanto temida pelo que faz, mas pelo tipo de sujeito que idealmente procura formar.

Num mundo político que frequentemente depende de lealdades emocionais, simplificações narrativas e polarizações estratégicas, a ideia de indivíduos que se reivindicam como pensadores autónomos, menos permeáveis à pressão imediata e mais orientados por princípios do que por slogans, pode ser vista como uma anomalia difícil de integrar. Não porque seja perigosa em si mesma, mas porque é difícil de prever.

E tudo aquilo que escapa à previsibilidade tende a ser tratado com suspeita.

No fim, a questão talvez não seja apenas institucional, mas profundamente humana:

– A política receia realmente a Maçonaria, ou receia a existência de indivíduos que, ao reivindicarem autonomia de pensamento, tornam mais difícil qualquer forma de controlo simplificador sobre a sua consciência?

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