Opinião18 de junho: Quando o Trabalho Pede a Palavra

18 de junho: Quando o Trabalho Pede a Palavra

Artigo de Rui Vilaça.

© Rui Vilaça

No dia 18 de junho, a Assembleia da República discutirá um novo pacote laboral. Para muitos, será apenas mais um debate parlamentar. Mais uma proposta de lei. Mais uma votação.

Mas para quem vive do seu trabalho, não é apenas uma data.
É um momento de escolha, uma escolha sobre o país que queremos ser.

Porque há uma pergunta que continua sem resposta e que atravessa silenciosamente as fábricas, os hospitais, os escritórios, as escolas, os estaleiros e os transportes:

Quanto vale o trabalho de quem sustenta Portugal? Não quanto custa, quanto vale.

Durante demasiado tempo ensinaram-nos a olhar para o trabalho como um número numa folha de cálculo, uma variável económica, um custo de produção, uma percentagem na competitividade de uma empresa.

Mas o trabalho nunca foi apenas isso, o trabalho é o que transforma matéria em futuro.

É o que transforma esforço em alimento, conhecimento em progresso, cuidado em vida, sonho em realidade.

Tudo aquilo que existe à nossa volta passou primeiro pelas mãos, pela inteligência ou pelo sacrifício de alguém.

Nada nasce do vazio.

Nada se constrói sem trabalho.

Nada prospera sem trabalhadores.

E, no entanto, habituámo-nos a viver numa sociedade onde aqueles que carregam o peso da criação coletiva são frequentemente os primeiros a sentir o peso da insegurança.

Como chegámos aqui?

Talvez porque nos convenceram de que somos indivíduos isolados quando, na verdade, somos parte da mesma construção.

Convenceram-nos de que os problemas são individuais.

Que o salário é uma questão individual.

Que a precariedade é uma questão individual.

Que o medo do futuro é uma questão individual.

Mas não é.

Quando milhares vivem a mesma dificuldade, deixa de ser um problema individual para se tornar uma realidade coletiva.

E é precisamente por isso que os trabalhadores devem olhar para este debate com atenção.

Não por fidelidade a partidos.

Não por ideologias.

Não por slogans.

Mas por consciência.

Porque os direitos laborais não são favores, são conquistas.

E toda a conquista que deixa de ser defendida começa lentamente a ser perdida.

A democracia não vive apenas do voto.

Vive da participação, vive da vigilância, vive da capacidade de uma sociedade olhar para o poder e dizer: expliquem-nos. Convençam-nos. Justifiquem-nos.

Quem trabalha tem o direito, e talvez o dever, de exigir isso. o trabalho não é uma mercadoria. É a expressão mais concreta da contribuição de cada pessoa para a vida coletiva.
Por isso, quando se discute o trabalho, discute-se muito mais do que leis.
Discute-se dignidade.

Discute-se liberdade.
Discute-se justiça.
Discute-se o futuro.
O que estará em debate no Parlamento não pertence apenas aos deputados.

Pertence a todos aqueles que acordam cedo, regressam tarde, cumprem horários, criam riqueza e mantêm o país em funcionamento. Pertence a quem faz Portugal acontecer todos os dias.
E talvez tenha chegado o momento de recordar uma verdade simples, mas que demasiadas vezes é esquecida:
O trabalho não sustenta apenas a economia, o trabalho sustenta a República.

E quando o valor do trabalho é colocado em causa, aquilo que está verdadeiramente em causa é o valor que atribuímos às pessoas. Dia 18 de junho não deve ser apenas uma data parlamentar.
Deve ser um dia de consciência.
Um dia para recordar que nenhum país se constrói contra quem trabalha.

E que nenhuma sociedade terá futuro se esquecer aqueles que a erguem todos os dias.
Que ninguém se engane: quando o trabalho se levanta, não é apenas uma classe que fala, é o próprio país que encontra a sua voz.

PARTILHE A NOTÍCIA

LEIA TAMBÉM

PUBLICIDADE

Últimas Notícias

POPULARES