OpiniãoUm texto sobre incêndios

Um texto sobre incêndios

Artigo de Fernando Costa, Deputado Municipal de Braga pela Iniciativa Liberal.

© Fernando Costa

Talvez isto possa soar insultuoso para o estimado leitor: falar e pensar em incêndios, enquanto sai de casa e se esquiva do leque de buracos que se apresentam perante si, sob uma chuva desenfreada que continua a cair, dando a sensação, quase fatal, de que nunca irá parar. Admito – e sei-o por experiência própria – que não é fácil.

Ainda assim, permita-me a insistência. Porque tal como no verão de 2017 fazia sentido falar de cheias, estou plenamente convicto que faz agora sentido falar de incêndios.

Comecemos pelo Governo. A tentação de centralizar as culpas quando um desastre acontece é grande, e muitas vezes justa. Neste caso, entre as várias tempestades que tem assolado o país e em particular a zona centro, a gestão e as respostas do primeiro-ministro Luís Montenegro e da Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral tem sido, no mínimo, deficientes.

Mas também é evidente que a gestão comunicacional dos desastres tem sido manifestamente pior do que a gestão dos desastres em si. Desde a falta de empatia, às respostas vazias, à ausência de comunicação com autarcas das zonas mais afetadas, até ao “vamos aprendendo” perante o desespero das pessoas sem casa e sem luz, tudo isto constitui um verdadeiro manual de más práticas em comunicação de crise.

Todavia, entre um Governo e as pessoas, além das autarquias e dos municípios, é importante relembrar que há outras entidades que são (ou deviam ser) tão ou mais importantes. Nessa ponte está a Administração Pública, como prestadora dos serviços essenciais à população. E dentro dela temos, então, a Proteção Civil, que entre outras funções, tem a missão de prevenir e socorrer os portugueses em situações de catástrofes naturais.

Ao longo dos últimos dias, temos ouvido muito que estas tempestades – e as dimensões das mesmas – foram efetivamente inesperadas. Até acredito nisso. Mas as catástrofes são, por norma, inesperadas, e é precisamente por isso que o Estado e Proteção Civil devem estar preparados.

Para que essa intervenção seja eficaz, importa que as pessoas e respetivas administrações destes órgãos públicos tenham experiência, tenham preparação e estabilidade nos respetivos cargos. Não é preciso nenhum curso – como demonstram, aliás, algumas declarações públicas de Miguel Relvas – para saber que só com estas bases é possível pensar a longo prazo. E uma das consequências do pensamento a longo prazo é, precisamente, a maior capacidade de prevenção.

Infelizmente, estamos longe dessa realidade. Desde a Proteção Civil aos Hospitais, a cada mudança de Governo – algo que em Portugal tem sido particularmente frequente – vemos uma reestruturação completa dos respetivos cargos de chefia, impedindo qualquer estabilidade que se exige para uma maior responsabilização destes ofícios, para não falar da óbvia falta de meritocracia que fica acentuada nestes processos.

Porque se nós sabemos se determinado Diretor ou Administrador só o é até à próxima mudança de Governo, imaginem como se comportarão os próprios. Aliás, é sabido que muitas dessas mesmas nomeações são meramente temporárias até ao próximo cargo público que é atribuído, potencialmente mais favorável. Se o leitor está ainda cético quanto a esse ponto, não se lembra de Correia de Campos, ex-ministro da saúde, dizer que tinha um “assessor só para tratar das cunhas”? Não se lembra de Pedro Nuno Santos assumir, sem qualquer embaraço, que o estado normalmente contrata boys para empresas públicas?

Não peço, portanto, uma mudança de paradigma nos próximos seis meses, porque sabemos que ele não vai acontecer. Nem insisto com o lunático desejo que o Governo, seja ele qual for, nomeie pessoas pelas suas capacidades, e não pelas suas afinidades políticas. Só peço que, para variar nem que seja um pouco, se preparem minimamente para as calamidades que se seguem em território nacional, a começar pelos incêndios. Porque por mais inesperados que sejam, não vão imaginar as possibilidades e as respostas que se criam quando se prepara algo com antecedência.

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