
Durante séculos, a banca foi muito mais do que um lugar onde se depositava dinheiro. Foi um dos grandes motores do desenvolvimento económico, porque assentava sobre um princípio simples e poderoso: a confiança.
O banqueiro conhecia o cliente, sabia quem era, conhecia a sua família, acompanhava a evolução da sua empresa, visitava as suas instalações, compreendia o setor em que operava e avaliava aquilo que nenhuma folha de cálculo consegue medir, o carácter, a palavra dada, a capacidade de trabalho e a determinação.
O crédito era, acima de tudo, um voto de confiança.
Não significava ausência de prudência, mas que o risco era analisado através das pessoas, da sua história e do seu potencial, e não apenas através dos números.
Foi assim que nasceram milhares de pequenas e médias empresas que hoje constituem a espinha dorsal da economia portuguesa.
Muitos dos empresários que atualmente empregam dezenas, centenas ou mesmo milhares de trabalhadores começaram praticamente do zero. Não possuíam património relevante, nem balanços robustos, nem históricos financeiros que impressionassem qualquer comité de risco. Tinham apenas uma ideia, vontade de trabalhar, coragem para arriscar e uma ambição legítima de construir um futuro melhor para si e para os outros e houveram bancos que acreditaram neles.
Naturalmente, esse modelo não era perfeito.
Ao longo dos anos, a concorrência entre instituições financeiras intensificou-se, a procura incessante por lucros cada vez maiores, a pressão dos mercados, a remuneração associada aos resultados de curto prazo e uma cultura de crescimento quase ilimitado levaram muitos bancos, em Portugal e no mundo, a afastarem-se da sua missão essencial.
O crédito deixou de ser, em demasiados casos, um instrumento de desenvolvimento económico para passar a ser um produto financeiro destinado a alimentar resultados trimestrais cada vez mais ambiciosos.
Emprestou-se demasiado, por vezes, sem a prudência necessária.
Criaram-se bolhas especulativas, sobretudo no mercado imobiliário, sustentadas pela convicção de que os preços continuariam eternamente a subir.
A ganância sobrepôs-se, demasiadas vezes, ao bom senso.
Depois chegou 2008.
A crise financeira internacional expôs as fragilidades de um sistema que confundiu crescimento com especulação e rentabilidade com sustentabilidade.
Milhões de famílias perderam as suas casas, milhares de empresas encerraram, por consequência desemprego disparou.
Estados foram obrigados a intervir para evitar o colapso de instituições financeiras consideradas demasiado grandes para falirem, também Portugal pagou um preço elevadíssimo.
Assistimos ao colapso de bancos históricos, à perda de poupanças, à destruição de valor e a sucessivos resgates que acabaram, direta ou indiretamente, por recair sobre os contribuintes.
Era inevitável que a banca aprendesse com os seus erros, mas o problema foi a forma como decidiu aprender.
Em vez de procurar um equilíbrio entre prudência e proximidade, escolheu, muitas vezes, refugiar-se na burocracia e na padronização.
A confiança nas pessoas foi substituída pela confiança nos algoritmos, a experiência dos gestores deu lugar aos modelos estatístico, o conhecimento do cliente foi substituído por indicadores automáticos e o empresário deixou de ser ouvido, passou a ser classificado.
Hoje, quem entra num banco acredita que vai apresentar um projeto, mas na realidade, apresenta documentos:
– Declarações fiscais,
– Mapas de responsabilidades,
– Extratos bancários,
– Garantias,
– Projeções financeiras,
– Rácios,
– Scorings.
O empresário fala durante alguns minutos, os documentos falam durante meses e, frequentemente, quem toma a decisão nunca conheceu aquele cliente, nunca visitou a empresa, nunca percebeu o mercado onde atua e nunca viu a paixão com que aquele projeto foi construído.
Pergunto-me se esta transformação não terá ido longe de mais:
– Como pode um jovem empreendedor apresentar um histórico empresarial sólido se ainda não teve oportunidade de criar a sua empresa?
– Como demonstra capacidade financeira quem procura precisamente financiamento para iniciar atividade?
– Como se mede a visão?
Como se quantifica a perseverança?
– Como se transforma em algoritmo a honestidade, a resiliência ou a capacidade de liderança?
Essas qualidades continuam a existir, apenas deixaram de caber numa plataforma informática.
Mais curioso ainda é verificar que, para muitos bancos, ser cliente já não representa uma relação de confiança construída ao longo dos anos. Parece, por vezes, representar quase um privilégio concedido pela própria instituição.
O cliente paga comissões de manutenção, de cartões, de transferências, de processamento e de uma multiplicidade de serviços, centraliza salários, domicilia pagamentos, constitui poupanças, contrai créditos que o acompanharão durante décadas.
Mas, quando chega o momento em que verdadeiramente necessita do apoio do banco, descobre que toda essa relação vale menos do que uma classificação produzida por um sistema automático.
Não defendo o regresso ao facilitismo que antecedeu a crise financeira, a prudência é indispensável, o rigor é uma obrigação, a gestão do risco protege depositantes, investidores e a estabilidade do sistema financeiro, mas existe uma enorme diferença entre gerir o risco e deixar de acreditar nas pessoas. Porque um balanço contabilístico descreve o passado, um empreendedor determinado pode construir o futuro.
A banca nasceu para transformar poupança em investimento, investimento em empresas e empresas em prosperidade. Não nasceu para ser apenas uma máquina de validação documental.
Quando deixa de acreditar nas pessoas, deixa também de acreditar naquilo que sempre fez mover a economia, a iniciativa, a coragem, o trabalho e o talento humano.
E fica uma pergunta que nenhum conselho de administração, nenhum regulador e nenhum banqueiro deveria ignorar:
– Se os bancos de hoje aplicassem os mesmos critérios aos empresários que fundaram algumas das maiores empresas portuguesas há trinta ou quarenta anos, quantos deles teriam obtido o seu primeiro financiamento? Ou será que muitos dos empresários que hoje admiramos nunca teriam conseguido ultrapassar a receção de um banco?


