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OpiniãoTrombose: potencialmente fatal, potencialmente evitável

Trombose: potencialmente fatal, potencialmente evitável

© Duarte Silva

Celebra-se anualmente a 13 de outubro o Dia Mundial da Trombose, uma iniciativa da Sociedade Internacional da Trombose e Hemostase (ISTH). É uma campanha de alerta global, focalizada em aumentar a consciencialização da população para os sinais, sintomas e fatores de risco associados à trombose, um problema muitas vezes negligenciado.

A trombose consiste na formação de um coágulo a nível dos vasos sanguíneos com consequente obstrução ao fluxo de sangue, sendo atualmente considerado o evento causal de 1 em cada 4 mortes a nível global.

O tromboembolismo venoso engloba a Trombose Venosa Profunda (TVP) e Embolia Pulmonar (EP), duas doenças inter-relacionadas dado que a primeira corresponde à formação de um coágulo na circulação venosa (mais comumente nas veias profundas da perna) podendo este “libertar-se” da parede do vaso e migrar pelo sistema vascular, alojando-se na circulação pulmonar – EP, situação esta potencialmente fatal.

A apresentação clínica típica da TVP compreende dor, calor, rubor e edema (vulgo “inchaço”) da perna, mas no caso da Embolia Pulmonar, esta pode ser mais diversificada e com amplo espectro de gravidade à apresentação, desde assintomática ou manifestar-se por palpitações, falta de ar, dor torácica e/ou desmaio.

A incidência estimada do tromboembolismo venoso é de 1-2 pessoas em cada 1000 pessoas/ano, sendo atualmente a 3ª principal causa de morte cardiovascular, apenas ultrapassado pelo Acidente Vascular Cerebral e o Enfarte Agudo do Miocárdio.

A patogénese é complexa e está associada a diversos fatores de risco tanto a nível individual (inatos e/ou adquiridos), como social e/ou associada aos cuidados de saúde.

Existem assim fatores de risco modificáveis como a obesidade, o sedentarismo e o tabagismo, e fatores de risco não modificáveis como a idade avançada, mutações genéticas que aumentam o risco de trombose (trombofilias), patologias coexistentes como neoplasias, história prévia de tromboembolismo venoso, terapêuticas medicamentosas (ex: terapêutica hormonal), gravidez / puerpério, imobilização prolongada e o internamento hospitalar (motivado por doença médica ou procedimento cirúrgico).

De facto, 60% destes eventos ocorre em relação com um internamento, sendo por isso o tromboembolismo venoso a principal causa de morte evitável a nível hospitalar. Assim, baseados em dados clínicos, existem estratégias para avaliação do risco trombótico e hemorrágico individual e, quando indicado, motivam a instituição de medidas “antitrombóticas” (tromboprofilaxia), sejam elas farmacológicas (anticoagulação) ou mecânicas (dispositivos de compressão pneumática intermitente ou meias de compressão elástica).

Perante um evento agudo de tromboembolismo venoso, o tratamento passa em grande parte pela prescrição de anticoagulantes em dose terapêutica. O tempo total de tratamento é decidido de forma individualizada, considerando as características do doente e a situação clínica na origem do evento, numa decisão conjunta com o doente.

O diagnóstico e tratamento adequado e atempado destas situações reduz a mortalidade a curto prazo bem como as complicações a longo prazo, nomeadamente a síndrome pós-trombótica (situação que ocorre após uma TVP e que resulta nas alterações tróficas da pele, dor e edema persistente no membro afetado) e/ou hipertensão pulmonar (complicação de maior gravidade da EP e decorrente da obstrução persistente ao fluxo sanguíneo no vasos pulmonares com consequente sobrecarga do coração) que acarretam forte impacto negativo na qualidade de vida.

Fica evidente a possibilidade e obrigação da ação do próprio tanto a nível da prevenção como no tratamento do tromboembolismo venoso. O slogan da campanha da ISTH, Move against thrombosis (“Mova-se contra a trombose”), relembra que é imperativo a adoção de medidas simples – p.ex. intervalos em viagens de longo curso para uma curta caminhada ou exercício físico adequado – para redução dos eventos trombóticos.

Artigo de opinião de Duarte Lages Silva, especialista de Medicina Interna da Unidade Local de Saúde do Alto Minho e membro do Núcleo de Estudos de Doença Vascular Pulmonar da SPMI.

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