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Trabalhar até aos 66 anos e 11 meses: uma exigência injusta de quem nunca viveu a realidade da maioria dos portugueses

Artigo de Paulo Veiga.

© Paulo Veiga

Portugal é um país estranho.

É um país onde um trabalhador que descontou durante quarenta ou cinquenta anos é constantemente informado de que tem de trabalhar mais tempo porque a Segurança Social não é sustentável.

Mas é também um país onde muitos dos que fazem essas afirmações nunca conheceram verdadeiramente a dureza do trabalho que exigem aos outros.

O discurso oficial repete-se há décadas:

– Vivemos mais anos.

– Há menos jovens.

– A Segurança Social está sob pressão.

– É preciso trabalhar mais tempo.

– É preciso adiar a reforma.

– É preciso aceitar sacrifícios.

Sempre sacrifícios.

Mas curiosamente os sacrifícios recaem quase sempre sobre os mesmos, sobre os trabalhadores.

Sobre aqueles que se levantam às cinco ou seis da manhã, que passam décadas em fábricas, hospitais, escolas, obras, transportes, escritórios, balcões de atendimento, explorações agrícolas e pequenas empresas, aqueles que carregam verdadeiramente o país às costas.

Quando chega o momento da reforma, depois de uma vida inteira de descontos, descobrem que não só têm de esperar quase até aos 67 anos, como ainda veem as suas pensões limitadas, reduzidas ou penalizadas por múltiplos mecanismos legais.

O trabalhador comum desconta toda a vida e recebe uma pensão calculada ao cêntimo.

Cada falta, cada período de desemprego, cada salário mais baixo, cada interrupção de carreira.

Tudo conta para reduzir aquilo que irá receber.

Enquanto isso, os cidadãos assistem, há décadas, a uma realidade difícil de compreender.

Políticos, governantes e titulares de altos cargos públicos beneficiaram durante muitos anos de regimes especiais, subvenções vitalícias, acumulações de pensões e condições de acesso muito mais favoráveis do que aquelas que eram impostas ao cidadão comum.

Mesmo quando muitas dessas situações foram posteriormente alteradas ou limitadas, a perceção de injustiça permaneceu.

E permanece porque o princípio continua a parecer profundamente desigual.

Ao trabalhador exige-se cada vez mais, ao poder exige-se cada vez menos.

O cidadão comum é informado de que o sistema não tem dinheiro.

Mas encontra sempre dinheiro para estruturas políticas gigantescas, para assessorias, para institutos, observatórios, fundações,empresas públicas deficitárias, cargos de nomeação política, consultadorias, indemnizações milionárias. Para erros de gestão sucessivos pagos pelos contribuintes.

Quando se trata de garantir uma reforma digna a quem trabalhou uma vida inteira, o discurso é sempre o mesmo: – não há recursos.

Quando se trata de sustentar a máquina política, os recursos aparecem quase sempre.

É impossível ignorar esta contradição.

Um homem ou uma mulher que começam a trabalhar aos 20 anos terão, aos 60, quatro décadas de descontos, quarenta anos:

– Quarenta anos de riqueza produzida.

– Quarenta anos de impostos pagos.

– Quarenta anos a financiar o Estado Social.

– Quarenta anos a cumprir a sua parte do contrato social.

E ainda assim ouvem que não fizeram o suficiente, que devem continuar, mais um ano, mais dois, mais cinco, mais sete.

Até aos 66 anos e 11 meses, como se a vida fosse infinita, como se a saúde fosse garantida, como se o tempo pudesse ser recuperado.

Mas a verdade é simples, não pode, os anos que passam não regressam, as viagens adiadas não regressam, os momentos perdidos com os filhos e os netos, os sonhos constantemente adiados não regressam.

A grande falácia deste debate está na utilização da esperança média de vida como argumento político.

Os governantes dizem-nos que vivemos mais, mas esquecem-se de dizer que viver mais não significa viver melhor.

Muitos portugueses chegam à reforma já com doenças cardiovasculares, diabetes, problemas osteoarticulares, ansiedade, depressão, burnout e múltiplas limitações físicas.

Chegam vivos, mas não chegam necessariamente livres, nem chegam necessariamente capazes de aproveitar a vida.

A verdadeira questão não é quantos anos vive um cidadão?quantos anos vive com qualidade?

Uma sociedade civilizada não deve medir o seu sucesso pela quantidade de anos que consegue manter os seus cidadãos a trabalhar, deve sim medi-lo pela quantidade de anos que lhes permite viver com dignidade.

A reforma aos 60 anos deveria ser um direito universal.

Não porque as pessoas deixem de ser úteis, mas porque finalmente conquistaram o direito de escolher, escolher descansar, viajar, estar com a família, dedicar-se a projetos pessoais, e porque não escolher viver.

O Estado não pode continuar a olhar para os cidadãos apenas como contribuintes, as pessoas não são números, não são estatísticas, gráficos, são seres humanos.

E um ser humano não nasceu para passar toda a sua existência a trabalhar.

Nasceu para construir uma vida.

O mais irónico é que muitos dos decisores que defendem reformas cada vez mais tardias possuem condições financeiras que lhes permitem viver confortavelmente muito antes da idade legal da reforma.

Podem reduzir atividade, aceitar cargos menos exigentes, beneficiar de património acumulado, desfrutar de uma liberdade que está vedada à maioria dos portugueses. Por isso, quando defendem que um trabalhador deve continuar a laborar até quase aos 67 anos, falam frequentemente de uma realidade que não conhecem e de um sacrifício que não lhes será exigido da mesma forma.

Talvez tenha chegado o momento de inverter a lógica, de colocar a dignidade humana acima dos cálculos financeiros, de reconhecer que uma vida inteira de trabalho é suficiente.

Porque um país verdadeiramente justo não é aquele que consegue extrair mais anos de trabalho aos seus cidadãos, é aquele que lhes devolve tempo, tempo para viver

E nenhuma sociedade pode considerar-se verdadeiramente desenvolvida enquanto continua a exigir aos seus trabalhadores aquilo que muitos dos seus governantes jamais aceitariam exigir a si próprios.

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