
Existe um fenómeno curioso na psicologia dos nossos dias: quando vivemos ao lado de alguém verdadeiramente insuportável (com barulho a toda a hora, que deixa o lixo à porta, que estaciona em cima do passeio) começamos a tolerar, quase com graditão, o vizinho que apenas não nos cumprimenta. Afinal, em último caso, este ao menos não nos invade a vida. O problema com este cenário é que, gradualmente, “não invadir” deixa de ser o mínimo aceitável e passa a ser um elogio.
Sinto que, olhando para o vasto painel de comentariado em Portugal, tem sido este o efeito que o Chega tem trazido ao debate público.
Não quero ressalvar o que o partido diz ou deixa de dizer, a forma como (não) se comporta, a sua falta de estrutura partidária, ou mesmo o seu vazio ideológico que se mescla entre o estatismo e um populismo bacoco. Creio que isso já foi fartamente discutido. Com isto quero ressalvar (ou relembrar?) apenas o efeito secundário, silencioso e potencialmente perigoso que a sua presença tem na forma como nós avaliamos tudo o resto. Quando existe no espetro político um partido com propostas tão absurdas como contraditórias, com um comportamento social que tornou o nosso Parlamento numa sala de aula do 8ºC, (com todo o respeito para os alunos deste ano que não merecem esta comparação) o nosso termómetro morla decalibra-se. Incoscientemente, passamos a medir tudo em contraste com o pior.
E assim, uma proposta inefeciente de outro partido passa mais despercebida. O mau político passa a razoável porque ao menos sabe comportar-se. Um governo ineficaz, sem qualquer reforma, em último caso, passa a ser visto como “ao menos não é o Chega”. E isto traduz-se em vários planos municipais, não apenas na Assembleia da República. Em último caso, isto traduz-se até em vários países, desde Ventura até Trump. No fundo, ficamos tão ocupados a olhar para o abismo, que deixamos de ver os degraus que nos levam, potencialmente, até lá. E creio que essa corrupção de pensamento é tão ou mais danosa que a própria ameaça do Chega em si.
Não desejo com isto, naturalmente, que o Chega seja ignorado, apesar de sentir que a sua forma de estar vai-se tornando manifestamente repetitiva, e por isso mesmo, cada vez menos impactante. Gostaria apenas que ele deixasse de ser o principal ponto de referência, que já se tornou demasiado óbvio na sua matriz.
A analogia do vizinho, não sendo a mais prática, creio que serve aqui. Quando o padrão de comparação é a catástrofe, qualquer coisa menos catastrófica nos parece razoável. Mas uma democracia saudável não se avalia pelo que evitou de pior, avalia-se pelo que conseguiu de melhor. E essa avaliação exige um olhar atento sobre propostas medíocres, sobre promessas ocas, sobre medidas que até podem não ser horríveis, mas que simplesmente não chegam (algo que não nos tem faltado, infelizmente). Esse olhar fica embaciado quando estamos permanentemente a comparar tudo com o que consideramos o fundo do poço. Há uma fasquia, ou uma exigência, que se desvanece.
Por falar em paradoxos, confesso o meu: quero que o debate público se concentre menos no Chega e faço um texto exclusivamente sobre ele. Por isso é que, provavelmente, nunca serei um bom escritor. Espero, ao menos, ao final do dia, conseguir ser um bom vizinho.


