
Há imagens que não se esquecem. Não porque sejam raras, mas precisamente porque revelam algo que já estava lá, de forma constante, estrutural, quase banalizada, apenas escondido atrás do véu do poder e da narrativa. Ver, ao pormenor, o assassinato de um cidadão americano às mãos de agentes da emigração nos Estados Unidos não é apenas presenciar um crime. É assistir à falência momentânea daquilo que o mundo foi treinado a considerar “o centro da civilização moderna”.
E perante isso, surge a pergunta inevitável, quase dolorosa na sua simplicidade:
– o que produzem os Estados Unidos de tão importante que permite ao resto do mundo ajoelhar, calar e aceitar?
Mais ainda:
– por que razão o planeta, tão rápido a impor embargos a uns, parece incapaz de confrontar outros?
“O mito da democracia perfeita”
Durante décadas, os Estados Unidos venderam ao mundo uma promessa, a de que seriam o bastião da liberdade, o modelo da democracia, a terra onde a vida humana teria sempre valor e, onde a justiça seria universal. O problema não está na ideia, está no contraste com a realidade.
Porque a realidade, quando filmada, quando crua, quando inevitável, demonstra que a violência institucional não é um acidente, é um mecanismo. E quando esse mecanismo se repete, com diferentes rostos e diferentes uniformes, já não se trata de “casos isolados”. Trata-se de um sistema.
E o mais perturbador é isto: o mundo sabe.
Mas o mundo, muitas vezes, escolhe olhar de lado.
O império não se sustenta só por armas, sustenta-se por dependência.
A resposta à pergunta “o que produzem de tão importante?” não reside apenas em tecnologia, nem em riqueza, nem em inovação. Tudo isso existe. Mas há algo mais decisivo: os Estados Unidos produzem dependência.
Produzem poder financeiro, através de um sistema global fortemente ligado ao dólar,
influência política e militar, através de alianças, bases e tratados estratégicos,
domínio cultural, através da indústria do entretenimento e da comunicação,
controle narrativo, através de uma capacidade impressionante de determinar quem é “o bom” e quem é “o mau” em qualquer conflito internacional.
O mundo ajoelha porque, em muitos sectores, o mundo precisa. E quando se precisa, cala-se mais facilmente. Aceita-se. Normaliza-se. E em certos casos, colabora-se.
Embargos, a arma moderna da obediência.
O embargo, hoje, é muitas vezes apresentado como uma ferramenta “civilizada” de pressão diplomática. Mas, na prática, é frequentemente um instrumento de estrangulamento económico e, por vezes, social. Um embargo não atinge apenas governos. Atinge populações inteiras. Atinge doentes, trabalhadores, crianças, famílias.
E é aqui que surge a contradição ética,
se o mundo consegue impor embargos a países “inconvenientes”, por que não impõe consequências sérias às potências que violam direitos humanos diante das câmaras?
A resposta é simples e brutal:
– porque há países que são punidos… e há países que são intocáveis.
E a intocabilidade não vem da moralidade. Vem do poder.
“A seletividade moral do Ocidente”
Há uma hipocrisia silenciosa na política internacional, a moral é usada como arma, mas raramente como princípio. Quando um inimigo comete uma atrocidade, é condenado com firmeza. Quando um aliado o faz, relativiza-se.
O mesmo mundo que exige “democracia” a outros, tolera abusos quando esses abusos servem interesses geoestratégicos. O mesmo mundo que fala de direitos humanos em fóruns internacionais, suporta estruturas de violência quando elas se encontram dentro de fronteiras “amigas”.
E isto não é apenas um problema americano. É um problema global. Porque o maior combustível da impunidade não é o agressor, é a ausência de consequências.
O que está realmente em causa, dignidade humana ou estabilidade do sistema?
Quando a vida de um cidadão pode ser tirada por agentes do Estado, e o sistema continua a funcionar como se nada fosse, a questão deixa de ser “quem foi o culpado?” e passa a ser,
que tipo de sociedade aceita isto como custo operacional?
Que tipo de mundo permite isto sem reação proporcional?
Se a justiça é seletiva, então não é justiça é estratégia.
E se os direitos humanos dependem do país em que nasces, então não são direitos, são privilégios políticos.
“O medo de confrontar o império”
Confrontar os Estados Unidos, para muitos países, significa arriscar sanções, perda de acesso a mercados, bloqueios diplomáticos, chantagens económicas, isolamento estratégico. O mundo sabe disso. E por isso muitos preferem a prudência à coragem.
Mas há um preço. Sempre há.
E esse preço é a integridade moral das nações. É a verdade como valor. É a dignidade humana como fundamento. Quando se tolera o intolerável por conveniência, cria-se uma nova regra invisível:
– a vida vale menos quando o assassino pertence ao lado certo da História.
A pergunta final: – o mundo ajoelha por medo ou por comodismo?
Talvez a resposta esteja nas duas coisas.
Há medo, sim.
Mas também há comodismo. Há interesses. Há lucros. Há acordos. Há uma economia mundial estruturada para não contrariar quem detém as chaves.
E enquanto isso, continuamos a assistir a episódios que deviam abalar consciências, mas que acabam por ser consumidos como notícia, como choque momentâneo, como indignação passageira.
O mundo ajoelha porque foi treinado para acreditar que não há alternativa.
Mas há sempre alternativa.
O problema é que a alternativa exige algo raro, coragem coletiva e coerência ética. E isso, infelizmente, não se exporta, não se compra, não se impõe.
Constrói-se, ou perde-se.


