OpiniãoCAV. Pagar porque sim: a lógica da contribuição audiovisual

CAV. Pagar porque sim: a lógica da contribuição audiovisual

Artigo de José Rosa, Deputado Municipal pelo TB-Todos Barcelos.

© José Rosa

No meio de uma fatura de eletricidade, entre kilowatts, potências contratadas e contas que ninguém percebe bem, mas paga na mesma, lá aparece ela. Discreta, quase envergonhada, como quem sabe que não devia ali estar. A famosa CAV, Contribuição para o Audiovisual. Uma Palavra bonita que cheira a cultura, a informação, a serviço público, só não cheira é a escolha.

Esta contribuição paga-se sempre. Consuma-se, veja-se, oiça-se ou não um único minuto de televisão ou rádio pública. Na prática, o raciocínio é simples e quase genial, não interessa se usa, interessa que pode usar. E se pode, paga. É o princípio da disponibilidade forçada,  uma espécie de Netflix obrigatório, mas sem catálogo personalizado e sem botão de cancelar.

E o mais curioso é surgir na fatura da eletricidade, como se ver televisão fosse um fenómeno elétrico inevitável.  Para a maioria das pessoas, são cerca de 2,90 euros por mês. Um valor aparentemente inofensivo. Pequeno o suficiente para não gerar revoltas, grande o suficiente para, multiplicado por milhões, garantir um fluxo estável de financiamento. Um clássico, não dói individualmente, mas rende coletivamente. A nota justificativa é curiosa, “diz que” é para financiar o serviço público. Justo, dirão alguns. Talvez, mas então porque não financiar como se financiam outros serviços públicos, via impostos gerais? Porque esta insistência em criar uma taxa específica, obrigatória, associada a um consumo totalmente distinto?

A resposta é simples,  é mais fácil assim. Disfarça-se melhor, dilui-se no meio de outras rubricas, e,  sobretudo, evita-se a discussão de fundo, aquela mais incómoda — a de saber se faz sentido obrigar todos a financiar algo que nem todos usam. A isenção para consumos muito reduzidos é apresentada como gesto social. Um detalhe simpático, sem dúvida, mas não resolve o essencial ou seja,  quem não consome, paga,  quem não quer, paga na mesma. Ou seja, estamos perante uma  liberdade, mas…com débito direto.

No fundo, a CAV é um excelente exemplo de como um imposto pode ser tudo ao mesmo tempo: pequeno, constante, silencioso e inevitável. Uma espécie de streaming fiscal que corre sempre em segundo plano, sem pedir autorização. E o mais fascinante é que já ninguém estranha. Entrou no quotidiano como o IVA ou o preço da eletricidade. Está lá, pronto. Aceite. Normalizado. A verdadeira obra-prima não foi criar a taxa. Foi fazer com que deixasse de ser questionada.

Talvez esse seja o maior sucesso do audiovisual público. Não o que vemos no ecrã, mas o que não vemos na fatura.

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