Ceder um bem público sem exigir contrapartidas objetivas não é governar — é abdicar de governar. É empurrar um problema para a frente, embrulhado numa solução que só resolve a fotografia da semana. E se a fotografia render uns votos extra, tanto melhor.
Ao não exigir um plano detalhado, a Junta perdeu a oportunidade de garantir que esta cedência se traduzirá em resultados concretos. Sem um documento que estabeleça prazos, metas e indicadores, não há como medir o progresso nem responsabilizar quem recebe. E se daqui a um ano o campo estiver igual, o erro será ainda mais grave: terá sido um ato político sem estratégia, apenas para encerrar um tema incómodo antes das eleições.
Governar é mais do que assinar papéis. É garantir que o ato político produz efeito real na vida das pessoas. Neste caso, a Junta optou pelo caminho mais fácil — entregar e esperar pelo melhor. Mas no interesse público, “esperar pelo melhor” é uma receita para o fracasso.
O que realmente fez mexer
A verdade é simples: o que moveu este processo não foi a máquina política, foi a iniciativa privada. Foram os sócios, os voluntários e a comunidade que mantiveram o clube vivo, que organizaram eventos, que preservaram a identidade do Campo dos Maikes. O trabalho feito até aqui não dependeu de promessas eleitorais — foi construído com vontade, tempo e esforço.
Isto é um exemplo concreto do que a Iniciativa Liberal sempre defendeu: menos bloqueio político, mais liberdade para a sociedade civil agir. Quando a comunidade tem espaço para trabalhar, as coisas avançam. O problema é que, no momento de formalizar, o poder político aparece não para exigir mais, mas para se associar ao trabalho feito por outros, sem ter dado garantias de que o próximo passo será dado.
O desafio agora
Com o campo nas mãos da associação, a responsabilidade é total. Mas sem um plano concreto, o risco de inércia é enorme. Um comodato sem exigências é, no fundo, um cheque em branco. E cheques em branco no setor público raramente acabam bem.
O desafio para a associação é claro: apresentar um projeto robusto, com prazos, orçamento, fontes de financiamento e objetivos claros. Mostrar que tem capacidade para transformar o campo num ativo vivo, não apenas num símbolo de boas intenções. E fazê-lo já, não daqui a um ano.
O Campo dos Maikes não precisa de mais anúncios cirurgicamente programados para o calendário eleitoral. Precisa de ação, metas definidas e prestação de contas. O papel da política é apoiar e fiscalizar, não usar a iniciativa comunitária como palco de campanha. E o papel da associação é entregar resultados, não apenas receber a chave.
Se falharem, perdem-se duas coisas: o Campo dos Maikes e a credibilidade — do Partido Socialista, que anunciou vitória e da associação que disse “sim”, sem apresentar prova de que podia cumprir.