
Prometeram, adiaram e cederam — mas sem pedir garantias. Assim até parece fácil governar.
Durante anos, o Campo dos Maikes foi promessa de campanha e assunto de ocasião. Passou por discursos inflamados, anúncios com direito a fotografia e crónicas de indignação — mas nunca viu obra de relevo. Agora, a Junta decidiu cedê-lo à associação “Os Maikes – Futebol Clube de Fraião” por comodato. No papel, parece um desfecho feliz. Na prática, é uma solução rápida, sem plano e sem garantias. Fácil de anunciar, arriscada de concretizar.
O Campo dos Maikes é mais do que um terreno: é um símbolo para a comunidade. Um espaço que já viveu glórias desportivas, que alimentou a vida social da freguesia e que, nos últimos anos, foi definhando entre promessas adiadas. E é precisamente por isso que a forma como se tem gerido este dossiê revela muito sobre a cultura política local.
Linha do tempo de um caso previsível
17 de junho de 2021 – A Câmara Municipal anuncia a construção de um pavilhão de ginástica no antigo Campo dos Maikes. Não foi num dia qualquer. Faltavam exatos 101 dias para as eleições autárquicas de 26 de setembro de 2021. A promessa ganhou destaque mediático, foi partilhada, elogiada, discutida… e depois arquivada. Passadas as eleições, não houve projeto, não houve obra, não houve sequer explicação clara para a paragem.
27 de agosto de 2023 – Dois anos mais tarde, publiquei a crónica “O renascimento do Campo dos Maikes: do abandono à ação”. Era uma crítica à passividade política: desde 2021, nada tinha sido feito. O campo permanecia abandonado, com o desgaste natural a acumular-se e sem que a promessa de um pavilhão tivesse dado um único passo.
29 de dezembro de 2024 – O clube organiza um almoço e um jogo simbólico, ironicamente no Campo da Caseta. Foram momentos de verdadeira vida comunitária, prova de que a energia e a identidade do clube ainda estão vivas. Mas estruturalmente, o campo dos Maikes estava igual. Nenhuma intervenção relevante, nenhum avanço físico.
20 de julho de 2025 – A 90 dias das eleições autárquicas de 12 de outubro, o executivo socialista da Junta aprova a cedência do campo à associação, por comodato. A decisão é anunciada como “histórica”. Porém, há um detalhe que não pode ser ignorado: a associação não apresentou, até agora, qualquer plano para o futuro do espaço. Nenhum calendário, nenhum orçamento, nenhuma visão estruturada.
O erro estratégico da Junta
Ceder um bem público sem exigir contrapartidas objetivas não é governar — é abdicar de governar. É empurrar um problema para a frente, embrulhado numa solução que só resolve a fotografia da semana. E se a fotografia render uns votos extra, tanto melhor.
Ao não exigir um plano detalhado, a Junta perdeu a oportunidade de garantir que esta cedência se traduzirá em resultados concretos. Sem um documento que estabeleça prazos, metas e indicadores, não há como medir o progresso nem responsabilizar quem recebe. E se daqui a um ano o campo estiver igual, o erro será ainda mais grave: terá sido um ato político sem estratégia, apenas para encerrar um tema incómodo antes das eleições.
Governar é mais do que assinar papéis. É garantir que o ato político produz efeito real na vida das pessoas. Neste caso, a Junta optou pelo caminho mais fácil — entregar e esperar pelo melhor. Mas no interesse público, “esperar pelo melhor” é uma receita para o fracasso.
O que realmente fez mexer
A verdade é simples: o que moveu este processo não foi a máquina política, foi a iniciativa privada. Foram os sócios, os voluntários e a comunidade que mantiveram o clube vivo, que organizaram eventos, que preservaram a identidade do Campo dos Maikes. O trabalho feito até aqui não dependeu de promessas eleitorais — foi construído com vontade, tempo e esforço.
Isto é um exemplo concreto do que a Iniciativa Liberal sempre defendeu: menos bloqueio político, mais liberdade para a sociedade civil agir. Quando a comunidade tem espaço para trabalhar, as coisas avançam. O problema é que, no momento de formalizar, o poder político aparece não para exigir mais, mas para se associar ao trabalho feito por outros, sem ter dado garantias de que o próximo passo será dado.
O desafio agora
Com o campo nas mãos da associação, a responsabilidade é total. Mas sem um plano concreto, o risco de inércia é enorme. Um comodato sem exigências é, no fundo, um cheque em branco. E cheques em branco no setor público raramente acabam bem.
O desafio para a associação é claro: apresentar um projeto robusto, com prazos, orçamento, fontes de financiamento e objetivos claros. Mostrar que tem capacidade para transformar o campo num ativo vivo, não apenas num símbolo de boas intenções. E fazê-lo já, não daqui a um ano.
O Campo dos Maikes não precisa de mais anúncios cirurgicamente programados para o calendário eleitoral. Precisa de ação, metas definidas e prestação de contas. O papel da política é apoiar e fiscalizar, não usar a iniciativa comunitária como palco de campanha. E o papel da associação é entregar resultados, não apenas receber a chave.
Se falharem, perdem-se duas coisas: o Campo dos Maikes e a credibilidade — do Partido Socialista, que anunciou vitória e da associação que disse “sim”, sem apresentar prova de que podia cumprir.
Artigo de Hélder da Rocha Pereira, membro do Grupo de Coordenação Local da Iniciativa Liberal.


