
Há qualquer coisa de profundamente irónico em sermos a geração mais monitorizada no trabalho e, ao mesmo tempo, a menos ouvida.
Há softwares que contam minutos de pausa, relógios que registam entradas e saídas ao segundo, métricas para avaliar produtividade, simpatia, rapidez, eficiência e até o tempo que demoramos a responder a um email. Tudo é medido. Tudo é transformado em gráfico, relatório ou desempenho. Tudo menos as chefias.
Nunca vi um trabalhador receber um questionário anónimo mensal sobre a capacidade emocional do seu chefe. Nunca vi métricas para avaliar quantas vezes uma liderança sobrecarrega equipas, falha comunicação ou cria ambientes de ansiedade permanente. Avaliam-se trabalhadores até à exaustão, mas continua a existir uma espécie de imunidade hierárquica onde quem lidera raramente é verdadeiramente avaliado por quem está abaixo.
E talvez os resultados não fossem assim tão positivos.
Foi apresentado no III Congresso Internacional de Ambientes de Aprendizagem e Trabalho Saudáveis o mais recente relatório do Laboratório Português dos Ambientes de Trabalho Saudáveis e o mais estranho foi perceber que quase nada daquilo me surpreendeu verdadeiramente. Burnout elevado. Exaustão emocional. Sensação constante de sobrecarga. Chefias percecionadas como distantes. Quase 40% dos trabalhadores portugueses a afirmar já ter sido vítima de assédio laboral. Mais do que os números em si, o relatório expõe uma cultura de trabalho ainda muito presa à lógica do controlo, à ideia de que trabalhar bem continua a significar estar presente, ser visto, quase como se produtividade e vigilância fossem a mesma coisa.
Enquanto jovem, sinto isso constantemente.
Com o preço absurdo das casas, das rendas e do custo de vida, a verdade é simples: eu quero estar em casa. Quero usufruir minimamente do espaço pelo qual pago a maior parte do meu salário. Quero poder almoçar na minha cozinha, poupar horas de transportes, evitar trânsito e chegar ao fim do dia sem sentir que vivi mais tempo no caminho para o trabalho do que propriamente na minha vida.
E isto não significa que odeie o trabalho presencial. Pelo contrário.
Reconheço perfeitamente as vantagens de existir um espaço físico de trabalho separado da casa. Há conforto psicológico nisso. Gosto da ideia de entrar em casa e sentir que aquele continua a ser o meu lugar seguro, e não uma extensão do escritório. Acho importante existirem momentos presenciais, encontros, contacto humano, conversas que não acontecem por Teams.
Mas também penso muitas vezes que, se estivesse em teletrabalho e tivesse apenas um encontro presencial semanal, provavelmente valorizaria muito mais esse momento. Talvez estivéssemos todos mais disponíveis para conversar verdadeiramente, discutir dinâmicas de trabalho, trocar ideias e resolver problemas que hoje ficam eternamente adiados porque pensamos sempre: “falamos amanhã, estamos cá outra vez”.
A presença constante banalizou o contacto.
E depois há os pequenos absurdos culturais que continuam tão normalizados que já ninguém os questiona.
A pausa para fumar, por exemplo.
É perfeitamente aceite alguém desaparecer várias vezes por dia durante dez ou quinze minutos porque fuma. Mas experimentar levantar-se para esticar as pernas, apanhar ar ou simplesmente descansar os olhos do ecrã sem um cigarro na mão continua a parecer suspeito. Como se o descanso só fosse legítimo quando vem acompanhado de nicotina.
Há uma romantização do desgaste no trabalho que continua muito viva em Portugal.
Em Portugal, continua a existir a ideia de que trabalhar muitas horas é automaticamente trabalhar melhor. O cansaço ainda é visto quase como prova de dedicação e estar sempre ocupado parece valer mais do que ser realmente eficiente. E mesmo quando relatórios da OCDE mostram, há anos, que somos dos países europeus onde mais horas se trabalha sem que isso se traduza em maior produtividade, a possibilidade de reduzir horários ou flexibilizar modelos de trabalho continua a ser tratada quase como uma ameaça. Como se o problema estivesse na falta de horas e não numa cultura laboral que ainda valoriza mais a permanência do que os resultados.
Como se dizer “a tarefa está feita, podes ir embora” fosse um atentado cultural.
Parece impensável admitir que talvez uma pessoa consiga fazer um bom trabalho em cinco horas e não precise de ficar mais três apenas para cumprir um ritual de presença. Porque, no fundo, ainda existe esta mentalidade silenciosa de que o importante não é só produzir, é parecer que se está a produzir.
Talvez seja isso que mais cansa a minha geração.


