
Ser influencer (em inglês é ainda mais apetecível) tornou-se uma das profissões mais desejadas do planeta, pois não exige competências verificáveis, não exige utilidade mensurável e, em muitos casos, nem sequer exige coerência interna. Exige, sobretudo, audiência.
A culpa, todavia, não é só de quem produz o conteúdo, mas também de quem o consome avidamente como se fosse verdade inquestionável.
Construímos uma sociedade onde a relevância se mede em visualizações e não em conhecimento. Um algoritmo não distingue entre uma explicação sobre mecânica quântica e um “o que como para um corpo de verão”. Ora, alguns de nós, ao que parece, também não distinguimos. Cada visualização, cada “gosto”, cada partilha é uma forma de legitimação. O algoritmo executa, mas a escolha inicial continua a ser humana.
Há influencers que vendem estilos de vida, suplementos milagrosos ou opiniões sobre tudo sem nunca terem estudado nada sobre nada. O resultado é uma espécie de praça pública digital onde a autoridade se autoatribui e a validação vem em forma de corações ou de polegarzinhos amarelos.
Entretanto, no mesmo mundo paralelo, existem pessoas como Nuno Maulide, químico português, professor universitário, investigador premiado e comunicador científico excecional, que consegue fazer o raro exercício de transformar química orgânica complexa em linguagem compreensível sem a desvirtuar. Em condições normais, isto devia ser suficiente para o transformar num fenómeno global. Não é. Não dança. Não provoca drama. Não dá escândalo. Dá conhecimento. E isso, infelizmente, hoje é pouco competitivo. A sua capacidade de comunicação demonstra que a ciência não é incompatível com a clareza, apenas é incompatível com a superficialidade.
Aqui, bem perto de nós, temos Jérôme Borme, investigador do INL em Braga, que trabalha em nanotecnologia e dispositivos baseados em grafeno, contribuindo para sensores e tecnologias com aplicações biomédicas reais, com impacto potencial direto na saúde, na tecnologia e na inovação. O tipo de trabalho que, noutro contexto civilizacional, seria tratado como central. No nosso, disputa atenção com vídeos de 12 segundos sobre “rotinas perfeitas de skincare”.
Não se trata de opor ciência a entretenimento, mas de reconhecer que o espaço público digital não é neutro. Ele molda perceções, influencia decisões e define o que é considerado relevante. E, nesse processo, a ciência não perde por falta de qualidade, mas por falta de competitividade num sistema desenhado para outra lógica. Queremos sociedades informadas, críticas, exigentes, mas premiamos sistematicamente quem simplifica até ao vazio e penalizamos quem explica com rigor.
Não basta pedir “mais ciência nas redes sociais”. A ciência já lá está. O problema é que compete no mesmo terreno que o ruído e a futilidade, com regras que não foram desenhadas para ela.
Também não vale a pena continuarmos a fingir que o problema é a falta de bons comunicadores. Não é. Apresentei-vos dois brilhantes, que podem seguir no Facebook. O problema é um público que diz querer profundidade, mas recompensa sobretudo o superficial.
Em suma, se quisermos mudar alguma coisa, não basta promover cientistas como influencers. Temos, antes de mais, de admitir que a influência não é apenas produzida, mas sobretudo escolhida.


