
Há um ano escrevia aqui que a organização do estacionamento em Barcelos era criticamente necessária para melhorar o trânsito em Barcelos. O espaço público é limitado e deve ser utilizado de forma eficiente. A existência de estacionamento pago pode promover uma maior rotatividade dos lugares e impedir que alguns veículos ocupem o mesmo espaço durante todo o dia. É o princípio do utilizador-pagador. Quem utiliza infraestruturas, paga-as.
Mas uma boa ideia pode transformar-se numa má política quando é mal planeada e pior executada.
Se os parquímetros significam um aumento da receita da Câmara Municipal, então essa receita deve traduzir-se numa redução de impostos ou de taxas municipais. Caso contrário, os barcelenses concluirão, legitimamente, que esta medida serve apenas para arrecadar mais dinheiro. Cobrar mais sem aliviar a carga fiscal é aumentar a pressão sobre quem vive, trabalha ou visita a cidade.
O problema começa, porém, muito antes dessa discussão.
A Câmara colocou os parquímetros e só depois pensou nas regras. Esqueceu-se dos residentes, ignorou as necessidades dos comerciantes e dos trabalhadores e avançou sem apresentar qualquer estratégia integrada para a mobilidade urbana.
Cobrar pelo estacionamento não é uma política de mobilidade. É apenas uma cobrança.
Uma verdadeira política exige alternativas. Exige parques de estacionamento de longa duração. Exige avenças mensais acessíveis para residentes e trabalhadores. Exige soluções que permitam retirar carros das zonas mais pressionadas sem penalizar quem não tem outra opção.
Nada disso foi acautelado.
Mas há um aspeto ainda mais revelador da falta de visão desta decisão: os equipamentos instalados.
Em pleno século XXI, Barcelos escolheu parquímetros que parecem ter ficado presos ao século passado. Não aceitam pagamentos com cartão bancário. Não devolvem troco. Não permitem pagar através de uma aplicação móvel. Se o tempo de estacionamento termina antes do previsto, o utilizador tem de regressar fisicamente ao parquímetro para colocar mais moedas.
É difícil imaginar uma solução menos amiga do cidadão.
Enquanto Barcelos obriga as pessoas a procurar moedas nos bolsos, cidades como Porto, Matosinhos ou Vila do Conde permitem pagar através do telemóvel, prolongar o tempo de estacionamento à distância, receber notificações e utilizar cartões bancários de forma simples e rápida. Essa é hoje a normalidade. Barcelos escolheu ficar para trás.
Mais incompreensível ainda é gastar dinheiro público em equipamentos que já nascem tecnologicamente obsoletos. Quando outras cidades investem em soluções inteligentes e digitais, Barcelos compra tecnologia ultrapassada, criando mais dificuldades precisamente a quem deveria servir.
A questão, por isso, não é apenas pagar para estacionar.
A questão é saber que cidade queremos construir.
Uma cidade moderna facilita a vida aos cidadãos. Uma cidade moderna utiliza a tecnologia para simplificar processos. Uma cidade moderna cobra quando faz sentido, mas garante alternativas, transparência e justiça.
Barcelos fez o contrário. Criou uma nova receita sem aliviar a carga fiscal, complicou a vida aos utilizadores, esqueceu os residentes e investiu em equipamentos que já nasceram desatualizados.
Os parquímetros podiam ser um instrumento de boa gestão urbana. Assim, arriscam-se a ficar como o símbolo perfeito de uma política sem planeamento: cobra mais, oferece menos e chega sempre atrasada.


