
O cancelamento da Linha Vermelha do Metrobus (BRT) deixou a mobilidade de Braga de regresso à estaca zero. Perdemos os fundos do PRR, mas ganhámos a oportunidade de ouro para parar, pensar e desenhar o futuro sem pressas eleitorais. A pergunta mantém-se: qual é o melhor caminho para tirar Braga do caos do trânsito?
O debate técnico tem flutuado entre três visões, mas apenas uma respeita a identidade e a escala da nossa cidade.
O Tram-Train é um colosso ferroviário. Embora ideal para ligar o Quadrilátero Urbano (Braga, Guimarães, Famalicão e Barcelos) a alta velocidade, falha redondamente no miolo urbano. É um veículo pesado e longo demais para penetrar no nosso tecido histórico sem exigir demolições ou túneis profundos e inviáveis.
O Metrobus (BRT), agora cancelado na sua vertente interna, provou ser um erro de palpite. Exigia “autoestradas de betão” e faixas exclusivas que iriam rasgar as nossas avenidas e descaracterizar o centro. Além disso, assenta em autocarros elétricos cuja vida útil das baterias nos obrigará a investimentos pesados a cada década.
A verdadeira solução para Braga não passa pelo asfalto agressivo nem por comboios pesados. Passa pelo regresso modernizado do elétrico ligeiro de superfície (Light Rail).
Proponho uma rede urbana em formato de cruz no coração da cidade. Um eixo Este-Oeste a ligar a Estação da CP à Universidade do Minho, e um eixo Norte-Sul a ligar o Hospital de Braga a Lamaçães/Nogueira. O ponto de encontro? O nosso epicentro natural: a Praça da República (Arcada) e o início da Avenida da Liberdade, com o Largo da Senhora-a-Branca a funcionar como rótula de distribuição para o polo universitário e hospitalar.
As vantagens deste modelo em cruz são cirúrgicas:
Respeito pelo Património: O elétrico pequeno e articulado curva em raios apertados e molda-se às nossas ruas estreitas. Os carris são embutidos no pavimento, permitindo a convivência pacífica com peões em zonas partilhadas.
Proximidade Real: Sem as barreiras físicas do BRT, as paragens ficam à porta de casa e do trabalho dos bracarenses, eliminando longas caminhadas.
Estratégia de Filtro: As pontas desta cruz devem morrer nas “portas da cidade”, ligadas a grandes parques de estacionamento dissuasores (Park & Ride). O condutor de Vila Verde, Amares ou Póvoa de Lanhoso deixa o carro na periferia e entra num elétrico rápido e silencioso até ao centro.
Esta rede em cruz, articulada com a futura circular rodoviária externa planeada pelo município, é o par perfeito. A circular desvia o trânsito pesado e de passagem; o elétrico limpa o trânsito interno e devolve o centro às pessoas.
.A seu tempo, esta rede em cruz poderá expandir-se com pequenas novas linhas no interior da cidade, aproximando ainda mais os cidadãos dos transportes públicos e motivando-os a deixar o automóvel em casa.
Em 1963, Braga cometeu o erro histórico de arrancar os carris dos seus antigos elétricos em nome do automóvel. Seis décadas depois, a engenharia europeia mostra-nos que o futuro das cidades de média dimensão se escreve sobre carris. É hora de corrigir o passado para salvar o futuro da nossa mobilidade.


