OpiniãoEnquanto Portugal arde, o PS agradece.

Enquanto Portugal arde, o PS agradece.

Artigo de Hélder da Rocha Pereira, membro do Grupo de Coordenação Local da Iniciativa Liberal.

© Hélder da Rocha Pereira

Todos os verões são iguais, mas este parece ter um enredo especial.

As serras ardem, o céu fecha-se em fumo, o ar torna-se pesado. Os mesmos helicópteros, as mesmas sirenes, os mesmos discursos em direto. Um teatro repetido até à exaustão, como se Portugal tivesse escolhido viver dentro de um loop infinito.

Mas há um detalhe diferente: aquilo que deveria ser o ponto fraco do Partido Socialista — o fantasma dos incêndios que o perseguiu durante oito anos — está a ser transformado na sua maior oportunidade. É quase irónico: as chamas que deviam consumir o legado de António Costa parecem agora iluminar a estratégia eleitoral do PS.

Costa deixou uma herança de cinzas.

Prometeu ordenamento, prometeu reorganizar a floresta, prometeu que os incêndios de 2017 seriam o último trauma coletivo. Mas ano após ano, a promessa dissolveu-se no ar quente de julho. O país voltou a arder, sempre. Os mortos ficaram na memória, mas as políticas nunca mudaram.

E não podemos fingir que este enredo começou agora. Basta recuar um pouco.

  • Em 2003, no chamado “verão negro”, Portugal perdeu mais de 400 mil hectares em chamas. Era primeiro-ministro Durão Barroso, à frente da coligação PSD/CDS. Foi um choque coletivo, a sensação de que o país inteiro estava sitiado pelo fogo. O governo prometeu reformas profundas.
  • Em 2005, dois anos depois, novo desastre: mais de 300 mil hectares ardidos. Só que o país já tinha mudado de cor política. Barroso tinha saído para Bruxelas, Santana Lopes tinha sido primeiro-ministro por meses, e em fevereiro desse ano José Sócrates (PS) chegava ao poder com maioria absoluta. O fogo não distinguiu cores partidárias. Voltaram as promessas solenes: nunca mais.
  • Em 2017, a tragédia subiu de patamar. Não foi apenas área ardida. Foram vidas perdidas em Pedrógão, em estradas transformadas em armadilhas de fogo. Mais de cem mortos. António Costa, no poder, jurou perante as câmaras que aquela seria a última vez.

Mas não foi. Nunca é.
Hoje, em 2025, cá estamos outra vez.

E o padrão repete-se com uma perfeição quase cruel: incêndios gigantes, conferências de imprensa, ministros em mangas de camisa, discursos inflamados, promessas que se dissolvem na primeira chuva de outono.

O que seria lógico — que o PS fosse finalmente responsabilizado pela herança de oito anos de políticas falhadas — não acontece. Pelo contrário. As chamas viraram cortina de fumo. A narrativa escorre para o governo atual, do PSD, que vai sendo queimado em lume brando. Como se a fogueira tivesse sido acesa ontem e não há vinte anos.

A comunicação social tem aqui um papel vergonhoso. Todos os dias repete em coro que este é “o pior ano de sempre”, como se fosse novidade. Esquecem, ou fingem esquecer, os traumas anteriores — em especial o fatídico 2017. Em vez de memória, preferem o espetáculo. Em vez de imparcialidade, alinham numa narrativa de esquerda que manipula o olhar do país. Enganam os portugueses, transformando a tragédia num guião político conveniente.

O PS e os partidos de esquerda aprenderam a arte da inversão. Onde havia culpa, agora há inocência. Onde havia falhanço, agora há oportunidade. E a memória coletiva, cansada e distraída, vai cedendo.

O PSD, por sua vez, não consegue romper o guião. Surge ao lado dos bombeiros, promete reforçar meios, anuncia planos. Mas tudo isso já vimos. Já ouvimos. É o mesmo eco vazio de sempre.

E aqui está o maior embuste: todos sabem que há soluções.

Não são segredo. Estão a ser testadas em diversos países, em diferentes continentes, com resultados concretos. Mas em Portugal prefere-se repetir o ritual gasto, como se fosse uma superstição: fazer sempre o mesmo e esperar resultados diferentes.

É como se estivéssemos condenados a viver entre cinzas e discursos. A cada década, um novo trauma. A cada verão, a mesma impotência. A cada governo, a mesma encenação.

Enquanto Portugal tratar os incêndios como espetáculo mediático, o PS pode até recuperar terreno eleitoral, e o PSD continuará a perder pele em cada chama. Mas o país, esse, perde sempre.

As cinzas que ficam não são de um partido. São de todos nós. E se continuarmos a cair neste truque de narrativa, seremos cúmplices. Não só da política. Mas do incêndio silencioso que consome, ano após ano, o nosso futuro.

E no fim, fica a imagem: um país inteiro a olhar para as chamas, hipnotizado, como quem olha para uma lareira. Há um conforto estranho nesse fogo distante, como se fosse apenas cenário. Mas quando o fumo se dissipa, percebe-se a verdade: não estamos diante da lareira. Estamos dentro dela.

Artigo de Hélder da Rocha Pereira, membro do Grupo de Coordenação Local da Iniciativa Liberal.

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