OpiniãoBraga merece mais do que promessas ao ar e menos diletantismo

Braga merece mais do que promessas ao ar e menos diletantismo

Artigo de Paulo Veiga.

© Paulo Veiga

“Um concelho justo, coeso e solidário, onde se criem oportunidades”. Foi com esta retórica que António Braga se apresentou aos bracarenses, palavras grandiosas, sem dúvida, que inspiraram voto e confiança. E agora? Agora descobre-se que o papel que ele encabeçava não era para assumir, se a cadeira de vereador não trouxesse o lugar de topo idealizado.

Ao invocar “um projeto”, “um novo tempo” para Braga, António Braga dizia querer “transformar a cidade”, “serenar o futuro”. Mas veste-se de formas desconcertantes quando, na prática, a transformação exige presença diária, assiduidade, ver-se empenhado nas tarefas de governação. Voltar costas às responsabilidades? Não era contratualizado em campanha.

Quando se exige aos bracarenses “confiança, mas com serenidade”, palavras da própria candidatura, espera-se reciprocidade: que quem pediu o voto tenha a serenidade de assumir o mandato, mesmo fora do lugar principal. A serenidade não é só para o discurso em palco, é para o suado trabalho no terreno.

Recusar assumir o cargo de vereador é, pois, um contraste chocante com os slogans mobilizadores. Parece dizer: “Votem-me para presidente ou nada feito”. Mas isso não era o que os bracarenses ouviram. Ouviram-lhe prometer “coerência”, “compromisso”, “solidariedade”. Agora veem, ou serão levados a ver, que o compromisso tinha letra pequena: só serve se for com holofotes.

Esta atitude fragiliza não só o candidato António Braga, mas todo o projecto que ele liderava. Quem vem com “o futuro é já”, e depois abandona a bancada se não for protagonista, envia a mensagem de que o eleitor é figurante e não cidadão com voz. Ele não votou num ensaio com direito a recusa de palco: votou para participar de facto.

A desculpa da “espera pelo desenvolvimento dos resultados” ou de “aguardar com serenidade” já não cola quando o anúncio de desistência surge com a mesma razão com que se ignora um correio indesejado. Os bracarenses que confiaram no “concelho justo, coeso, solidário” irão recordar-se deste momento como o instante em que as palavras encontraram o vazio.

Braga merece mais do que discursos enchidos e fecho de campanha espectacular. Quando um candidato assume que quer “transformar a cidade”, não pode fugir ao chão da Câmara quando o mapa dos votos não lhe dá o trono idealizado. A política local é mais do que visibilidade é presença constante. E isto, caro Senhor António Braga, não foi tratado com seriedade.

Os bracarenses não votam em promessas de vitrina; votam em quem assume que vai estar, no gabinete, nas reuniões, nas decisões, mesmo quando o holofote não brilha a seu favor. E quem falha nisso, falha sobretudo com o povo que confiou. Que sirva de aviso para todas as próximas candidaturas: não basta falar de “igualdade”, “oportunidades”, “novo tempo”, é preciso estar para assumir, mesmo sem cena.

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