
A recente proposta política de tornar os transportes públicos em Braga gratuitos tem vindo a ganhar destaque no debate público, em plena campanha eleitoral, impulsionada tanto por preocupações ambientais como pelo desejo de tornar a mobilidade mais acessível a todos. No entanto, a ambição de transformar completamente o paradigma da mobilidade urbana em Braga levanta sérios desafios que não podem ser ignorados. Em primeiro lugar, a gratuitidade dos transportes públicos exigiria um investimento contínuo de pelo menos 10 milhões de euros por ano apenas para compensar as receitas perdidas com a bilhética. Para além disso, há uma necessidade urgente de renovar a frota de veículos dos TUB, muitos dos autocarros atuais estão obsoletos, poluentes e não oferecem condições adequadas de conforto ou acessibilidade, não sendo atrativos para uso por parte dos Bracarenses. Investir numa frota moderna, preferencialmente elétrica ou movida a energias limpas, representa um custo adicional elevado, mas fundamental se quisermos falar verdadeiramente em sustentabilidade. Outra grande preocupação a ter em conta, será a reorganização da rede de transportes na cidade de Braga. Os atuais percursos e horários nem sempre respondem eficazmente às necessidades da população, o que contribui para a baixa adesão ao transporte público. Se Braga quer que os cidadãos optem pelo autocarro em vez do automóvel, a qualidade do serviço tem de melhorar substancialmente, tendo de haver autocarros com mais frequência, mais pontualidade, maior cobertura geográfica. Além disso, a estrutura urbana da cidade tem de ser repensada. Braga continua a ser profundamente marcada pelo automóvel: ruas congestionadas, poucas vias dedicadas ao transporte coletivo, falta de estacionamentos periféricos e pouca aposta em soluções de mobilidade integrada.
Um verdadeiro plano de transportes públicos gratuitos não pode viver isolado, exige uma estratégia global de mobilidade, com alterações no ordenamento do trânsito, incentivo à utilização de modos suaves como a bicicleta e a integração com outros sistemas de transporte. Por fim, a questão mais delicada: quem paga? A gratuitidade não significa ausência de custos, mas sim a sua redistribuição. Será justo pedir à autarquia e, por extensão, aos contribuintes que suportem este investimento num contexto de tantas outras necessidades sociais e económicas. A ideia de tornar os transportes públicos gratuitos em Braga é sedutora e até necessária no longo prazo, mas só será viável se for acompanhada de um plano financeiro sólido, reorganização da rede, investimento na frota e redefinição do espaço urbano. Sem estes pilares, a proposta corre o risco de ser apenas uma promessa populista sem impacto real.
Artigo de opinião do economista José Macedo.


