
O mundo vive um tempo de sobressalto climático. Ondas de calor extremo, secas prolongadas, chuvas diluvianas, incêndios de escala inédita e a progressiva instabilidade dos ecossistemas são hoje realidades inegáveis. O discurso dominante aponta o dedo, quase exclusivamente, à poluição gerada pelas populações, aos automóveis, ao consumo energético doméstico, ao plástico, à alimentação, aos hábitos quotidianos do cidadão comum. Porém, esta narrativa, repetida até à exaustão, peca por seletiva, conveniente e, sobretudo, profundamente injusta.
Ao longo do século XX e início do século XXI, a Humanidade foi palco de algumas das experiências mais violentas e irresponsáveis alguma vez realizadas contra o próprio planeta. Refiro-me aos ensaios nucleares levados a cabo pelas grandes potências militares, muitas delas autoproclamadas guardiãs da ordem mundial e da consciência ambiental.
Desde 1945, centenas de explosões nucleares foram detonadas na atmosfera, nos oceanos e no subsolo. Os Estados Unidos, pioneiros na utilização e teste da arma nuclear, realizaram mais de um milhar de ensaios, muitos deles atmosféricos, libertando para o ar quantidades incalculáveis de radiação. A Rússia (e a antiga União Soviética) respondeu com testes ainda mais potentes, incluindo a maior explosão nuclear alguma vez registada. A França contaminou extensas áreas do Pacífico e do deserto africano, durante décadas, com impactos que ainda hoje se fazem sentir nas populações locais. O Reino Unido realizou testes em territórios ultramarinos, longe dos olhos da sua própria população. A Coreia do Norte, já em pleno século XXI, voltou a rasgar a crosta terrestre com explosões subterrâneas, ignorando deliberadamente qualquer noção de equilíbrio ambiental ou segurança planetária.
Estas explosões não foram meros “eventos históricos”. Foram atos de violência geofísica. Alteraram camadas do solo, contaminaram lençóis freáticos, modificaram ecossistemas inteiros, dispersaram partículas radioativas na atmosfera global e interferiram com padrões naturais que ainda hoje não compreendemos totalmente. Foram agressões diretas à Terra, cujas consequências não se esgotam em relatórios confidenciais ou em tratados assinados a posteriori.
Perante este legado, é intelectualmente desonesto colocar no mesmo plano ou, pior ainda, sobrepor o impacto ambiental de um cidadão que conduz um automóvel a combustão ou aquece a sua casa, com o impacto sistémico e irreversível de centenas de detonações nucleares. A escala não é comparável. A natureza da agressão não é comparável. A responsabilidade não é comparável.
É evidente que a poluição gerada pelas populações tem efeitos reais e cumulativos, emissões de gases com efeito de estufa, degradação dos oceanos, produção excessiva de resíduos. Mas esta poluição é, em grande medida, consequência de modelos económicos, industriais e energéticos impostos de cima para baixo, frequentemente pelos mesmos Estados que, no passado, rasgaram o planeta em nome da supremacia militar. Exigir sacrifícios individuais sem assumir responsabilidades históricas é uma forma sofisticada de transferência de culpa.
O discurso climático dominante sofre, assim, de uma amnésia seletiva. Fala-se de palhinhas de plástico, mas raramente de cogumelos nucleares. Fala-se de impostos verdes, mas pouco de solos irremediavelmente contaminados por decisões geopolíticas. Fala-se de “consciência ambiental”, mas evita-se discutir o impacto real das maiores experiências destrutivas alguma vez realizadas pelo Homem.
Se quisermos, de facto, falar de alterações climáticas com seriedade, é imperioso alargar o foco. Não basta moralizar o comportamento das populações. É necessário confrontar a história, exigir transparência, responsabilizar Estados e reconhecer que parte significativa da instabilidade ambiental atual tem raízes profundas em decisões militares e estratégicas que nunca foram democraticamente escrutinadas.
Sem essa honestidade intelectual, o combate às alterações climáticas continuará a ser um exercício de retórica conveniente: pesado sobre os ombros dos cidadãos comuns e indulgente para com os verdadeiros agressores do planeta.


