AutárquicasEntrevistaAntónio Lima: “Queremos manter Braga limpa e apostar no transporte coletivo"

António Lima: “Queremos manter Braga limpa e apostar no transporte coletivo”

Entrevista ao candidato do Bloco de Esquerda à presidência da Câmara Municipal de Braga.

© Angélica Antunes

O concelho de Braga prepara-se para ir a eleições e eleger o seu terceiro presidente em democracia. Antonio Lima é o candidato do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Braga. Tem 72 anos, é advogado e já concorreu à Câmara de Braga em 2005. É deputado na Assembleia Municipal de Braga.

O que motivou a sua candidatura à Câmara Municipal de Braga?

A minha candidatura foi uma candidatura discutida nos órgãos do Bloco, nos órgãos concelhios e distrital, e entenderam os meus camaradas que eu seria a pessoa indicada para representar o programa do Bloco para a eleição à Autarquia de Braga, e eu aceitei essa tarefa como mais um trabalho cívico. Já estou na política há muitos anos e sempre no Bloco, desde a fundação. Entendo isto como uma tarefa que eu procuro representar da melhor forma e disponibilizar-me perante os munícipes e os cidadãos bracarenses para, se essa for a vontade deles, poder dirigir a Câmara de uma forma mais aberta e mais próxima dos cidadãos.

Que balanço faz destes 12 anos da coligação Juntos por Braga à frente da Câmara Municipal?

O balanço não é muito positivo. Primeiro porque, de facto, Ricardo Rio deu prioridade, acima de tudo, a uma tentativa de dinamização económica do concelho, nomeadamente à aposta no turismo, e esqueceu praticamente tudo o resto, ou seja, a mobilidade, a habitação, a vida da cidade em si e a dos cidadãos bracarenses foi descuidada. Nós entendemos que, mesmo na questão do turismo, os bracarenses só podem receber bem se estiverem bem, ou se a gente não estiver de espírito aberto e alegre, as visitas vão sentir-se constrangidas. Na cidade é a mesma coisa. Nós vemos aí pelo mundo fora cidades onde os habitantes não se sentem à vontade pela pressão turística e até se tornam obsessivos para os turistas.

Claro que Braga não atingiu esse ponto, nem atingirá tão cedo, mas esperamos que não seja atingido. Se não houver problemas de habitação, se não houver problemas de mobilidade, se houver espaços verdes, se os cidadãos forem felizes, é evidente que recebem os turistas com outra cara. Os turistas, desde que sejam com conta, peso e medida, são bem-vindos.

Na sua ótica, quais as principais necessidades do concelho? Quais são os principais problemas que Braga enfrenta atualmente e como os pretende resolver?

O lema do Bloco é fazer cidade. E, portanto, quando nós dizemos fazer cidade, é, de facto, fazer cidade com os cidadãos. Ouvir os cidadãos, quais são os seus problemas, quais são as suas necessidades, quais são as suas ambições e ouvi-los sempre. Ouvi-los sempre e proceder de forma a tentar ir ao encontro desses seus desejos.

O problema que nós detetámos como imediato é a habitação. Há muitos problemas de habitação em Braga, muitos escondidos, porque, de facto, nós não temos aqui a pressão da imprensa que existe noutros distritos e noutros concelhos, mas nós temos aqui muitos problemas de habitação, quer de cidadãos residentes, alguns que nasceram e toda a vida viveram em Braga, quer daqueles que nos procuraram para trabalhar. E esse é um grave problema.

O Ricardo Rio deixou a questão da habitação ao mercado, pura e simplesmente ao mercado, ou seja, não fez nada, não espetou um prego, não construiu uma casa. A BragaHabit, com os orçamentos pobres, enfim, vivendo do serviço das refeições às escolas e com pouco mais.

Pouco mais consegue fazer do que com as transferências do Município ir, digamos, apaziguando o sacrifício das famílias com o apoio ao arrendamento, que é o RADA, e foi aumentado o orçamento até por força da nossa intervenção na Assembleia Municipal. Fomos nós quem fizemos a primeira intervenção no sentido de que o RADA na altura tinha 200 mil euros, salvo o erro, era uma insignificância, e agora já está num milhão e tal de euros. Passou praticamente o orçamento a subir todos os anos, mas fomos nós que disputámos essa iniciativa da Autarquia.

Mas não houve construção, e de facto é preciso construir. Nós defendemos, e está no nosso programa, que a disponibilização de terrenos é essencial. Defendemos que o Município deve ter uma bolsa de terrenos públicos que possa ceder, de preferência urbanizados, às cooperativas e até eventualmente em algumas situações às famílias, para poderem construir, portanto, a preços reduzidos, porque nós sabemos que urbanizar um terreno fica caro, isso encarece também a habitação, e quando se vai comprar no mercado todos esses preços se refletem.

Ora, se a Autarquia tiver terrenos urbanizados, mata dois coelhos com uma paulada, como se costuma dizer. Por um lado, faz cidade de uma forma mais airosa, porque é a própria Autarquia que urbaniza, portanto pode fazer ruas mais largas, pode fazer ruas que permitam acesso aos transportes coletivos. No tempo do engenheiro Mesquita Machado, a pressa de construir habitação, fizeram-se bairros onde hoje não entra um autocarro.

Queremos apostar no transporte coletivo para tirar os carros da cidade e torna-se difícil em algumas situações. Portanto, sendo a Autarquia a urbanizar, pode fazê-lo de uma forma muito mais adequada ao futuro, uma perspetiva de futuro. Essa será a nossa prioridade, também com a intervenção, se possível, do movimento cooperativo, ou seja, a distribuição de terrenos às cooperativas para poderem elas próprias construir casas que depois vão ser disponibilizadas com rendas acessíveis ou pela venda a preços também compatíveis com o rendimento das pessoas.

Caso for eleito, o que pretende mudar no concelho nos próximos quatro anos?

Não vamos iludir os cidadãos, não vamos fazer falsas promessas, não vamos fazer eleitoralismo, vamos fazer cidade. Ou seja, manter a cidade limpa, manter a cidade com um trânsito que seja fluido e retirar o máximo de carros do centro histórico. Ver a questão dos passeios e do imobiliário urbano, que é essencial também, a questão da limpeza, da varredura, ver a recuperação de imóveis e inventariar o património da cidade, tudo isso é necessário ser feito.

Sendo certo que, se eu for eleito, a primeira coisa que uma pessoa que é eleita deve fazer é conhecer os cantos à casa, ou seja, temos que ver como é que está a Autarquia, nomeadamente os cofres da Autarquia. E depois, os cidadãos sabem o que querem, toda a gente sabe o que é que Braga precisa, já não é segredo para ninguém. Portanto, não interessa estar a prometer muitas circulares externas, os BRTs, tudo isso, muitas dessas coisas até se justificam e fazem falta, mas a gente sabe que não é para o mandato nem para dois nem para três, portanto é estar a iludir as pessoas.

O dia a dia é de facto aquilo que é mais importante, é a vida dos cidadãos no seu dia a dia.

Quais as propostas do seu partido para os mais jovens?

Os mais jovens, é evidente que aqueles que estão no mundo do trabalho, o problema deles serão os salários, a habitação e, eventualmente, os transportes. Tudo isso é fazer cidade e queremos resolver isso com eles.

Aqueles que são estudantes, é preciso fazer habitação também com as universidades, criando a possibilidade de aqueles que nos procuram e que vêm de fora para terem as suas residências universitárias onde possam fazer a sua vida enquanto estão na universidade. Os transportes gratuitos, ou seja, nós ascendemos a gratuitidade dos transportes coletivos, não só para os estudantes. Há outras questões do ensino que não dependem da Autarquia, dependem do governo central, mas em tudo aquilo que dependa da Autarquia, sempre discutindo essas questões com a universidade e com as escolas, isso é para o encontro dos anseios e das necessidades dos jovens.

No mundo do trabalho, melhorar os salários, nós sabemos que há uma faixa grande da juventude que sai, porque é evidente que há aqui alguns empregos. O executivo atual tem referido que cria dois mil empregos por ano, é provável que crie, não sei, não é a Autarquia que os cria, pode criar alguns, mas a maior parte é criada pelas empresas. O problema é que quando criam dois mil, há outro número de trabalhadores que ficam sem emprego, pelas mais diversas razões, ou seja, aqui teríamos que ver qual era o saldo, se é negativo ou se é positivo. Dizer que cria dois mil não significa nada.

Agora, é preciso um emprego com qualidade e, de facto, as pessoas têm muitas dificuldades, desde logo nos transportes. Braga é uma cidade de serviços, também, vem muita gente de fora trabalhar a Braga, que têm que trazer a viatura própria porque trabalham no comércio e nos serviços e quando saem muitas vezes já não têm transportes. E, portanto, essas pessoas precisam que olhemos para o problema deles e criar transportes das suas localidades para a cidade de Braga, evitar que essas pessoas tragam também os carros e criem ainda mais confusão, que é aquilo que acontece nas entradas e nas saídas de Braga.

E para os seniores? Existem propostas?

Os seniores têm o mesmo direito à felicidade de todos os outros. Eu até já sou um bocado sénior, um sénior ativo, mas os seniores o que pretendem é ser felizes, como qualquer pessoa.

A gente agora estratifica mais a população, mas, enfim, é uma seleção que às vezes não tem muito a ver com a realidade, porque as pessoas hoje em dia são ativas muito mais tempo, mas quando de alguma forma não podem ser ativas, querem estar próximas daquilo que sempre foi a vida deles. E aquilo que nós notamos é que, na maior parte dos casos, as pessoas mais idosas são retiradas do seu ambiente. São retiradas da família, desde logo porque a família não tem meios para cuidar deles.

Ou seja, o mundo do trabalho está cada vez mais exigente, ao contrário daquilo que seria razoável, porque se temos a inteligência artificial, se temos os robôs, se temos isso tudo, as pessoas deviam ser mais libertadas para a vida do dia a dia, para os filhos, para os pais, para os idosos, mas a verdade é que não é assim que corresponde. Ou seja, a economia é devoradora e não liberta. Pelo contrário, o trabalho hoje em dia é muito mais intenso.

Exige-se quase 24 horas por dia de disponibilidade e isso cria essas dificuldades. Nós o que propomos é que o cuidado dos idosos devia estar cumprido pelas Autarquias ou pelo Estado Central. Ou seja, nós temos Juntas de Freguesia. Porque é que um idoso que viveu sempre, por exemplo, aqui em Maximinos, em São Victor ou em São Lázaro, não há de passar a sua velhice na sua freguesia de sempre? Porque é que é vedado às Juntas de Freguesia terem lares de idosos na freguesia? Terem creches para as crianças na freguesia? Nós entendemos que são direitos constitucionais, quem deve garantir os direitos constitucionais é o Estado e, portanto, não pode ficar refém da iniciativa privada, porque agora há hubs para tudo, há os investidores sociais, ou seja, fazê-lo à custa da felicidade das pessoas é um bocado desumano.

Que mensagem quer deixar aos eleitores do concelho de Braga?

A mensagem que eu deixo aos eleitores é aquela que referi inicialmente, ou seja, o nosso lema é fazer cidade, se formos eleitos faremos sociedade como todos os cidadãos, nunca faremos nada nas suas costas, não haverá factos consumados, tudo o que seja para fazer na cidade, principalmente as intervenções no espaço público será sempre com o conhecimento dos cidadãos. Nunca tiraremos trunfos da manga para fins eleitoralistas, queremos que as pessoas sejam felizes e queremos que as medidas que tomarmos sejam medidas adequadas para o presente e sempre numa perspetiva de futuro, porque aquilo que fizermos hoje são os nossos filhos, os nossos netos que vão ter pior ou melhor qualidade de vida, a gente quer que tenham a melhor possível.

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