OpiniãoAi, Ai, Ai Web Summit.

Ai, Ai, Ai Web Summit.

Artigo de Hélder da Rocha Pereira, empresário e membro da Iniciativa Liberal.

© Hélder da Rocha Pereira

O Ministro Adjunto e da Reforma do Estado acabou de revelar a Portugal e ao mundo que temos um novo Sebastião: a inteligência artificial. A intervenção que roçou entre televendas e um pastor fanático de uma qualquer religião, embaraçou Portugal.

Há momentos em que sentimos vergonha alheia e depois há isto. Um governante português, no palco da Web Summit, perante uma plateia internacional, a tentar vender-nos a ideia de que a “salvação” do país está numa buzzword que mal compreende. Faltou-lhe apenas gritar “comprem já” e oferecer um desconto de lançamento.

A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, transformadora e inevitável. Mas não é uma aparição divina nem um remendo para décadas de inércia estrutural. E ouvir um ministro falar dela como quem anuncia um milagre tecnológico, é o retrato perfeito de um país que ainda confunde estratégia com entusiasmo.

O problema não é a fé na inovação, mas a ausência de pensamento crítico. A AI não vai resolver a burocracia, a educação, nem a estagnação económica por decreto. É preciso visão, talento, investimento e coragem política para fazer o que realmente importa: preparar pessoas, não apenas máquinas.

E se dúvidas houvesse, ainda esta semana Jensen Huang, CEO da NVIDIA, declarou que “os verdadeiros beneficiados desta era da inteligência artificial não serão apenas os engenheiros ou programadores, mas sobretudo os canalizadores, electricistas, carpinteiros…”.
Uma frase que diz mais sobre o futuro da economia do que qualquer discurso político.

Mas os nossos governantes não veem para lá da bolha mediática que é a AI e a Web Summit. Aliás, quanto a esta última — uma feira de cosmética não concentra tantas vaidades nem tanto networking à base de egos inflacionados. O evento vende-se como visionário e transformador, mas a verdade é que se tornou um desfile de autoproclamações messiânicas, onde cada pitch é um evangelho e cada app, a promessa de “mudar o mundo”.

E o sentimento de vergonha não parou por aí. Carlos Moedas, num exercício de propaganda digno de uma sitcom, anunciou que graças à Web Summit Lisboa já tinha atraído 16 unicórnios e, pasme-se, o 17.o estava a caminho.
Um deles, a Sword Health, empresa portuguesa com sede no Porto, abriu recentemente um escritório em Lisboa e aproveitou a inauguração para declarar apoio à candidatura de Moedas às autárquicas. Talvez isso explique o entusiasmo.

Nada de errado: as empresas crescem, expandem-se, abrem filiais. O insólito está em transformar um simples arrendamento de escritório em ato político e manchete de jornal.

Em tempos éramos a capital das startups, agora proclamámo-nos capital dos unicórnios. Um país onde os milagres de marketing substituem resultados reais, mesmo com tanto “talento” e “inovação”, continuamos a descer nos rankings europeus.
Enquanto isso, o mundo constrói, progride, transforma. A China cresce, os EUA lutam pela liderança global e a Europa arrasta-se penosamente sem rumo, presa à nostalgia de um passado que já ninguém teme.

Já nada nos resta de inovação genuína e não serão umas linhas de código, tal D. Sebastião digital, que nos hão de salvar.

Entre “ais” e “AIs”, continuamos a aplaudir-nos uns aos outros, convencidos de que a próxima app vai, finalmente, salvar o país.

E rimos. Porque, no fundo, é a única coisa que ainda sabemos fazer bem.

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