
“És de Braga, deixaste a porta aberta” será, provavelmente, uma das frases mais ouvidas por qualquer bracarense ao longo da sua vida, principalmente quando se encontra em territórios forasteiros e, por acaso, se esquece de fechar uma porta.
Trata-se de uma conhecida piada que remete, como sabemos, ao Arco da Porta Novo, “rasgado” no século XVI na muralha que circundava a cidade de Braga, e que até hoje continua a simbolizar a principal porta de entrada da nossa cidade, mesmo que sem porta.
Mas Braga tem outras portas de entrada.
A primeira é a nossa estação ferroviária, que há mais de 150 anos liga a cidade ao resto do país, desde a viagem inaugural que contou com a presença do rei D. Luís. Todos os dias milhares de pessoas passam por ali, chegando ou partindo com um destino em vista.
Depois temos uma segunda porta, ainda mais movimentada: a nossa Central de Camionagem, agora designado Centro Coordenador de Transportes. Uma estação que agrega os Transportes Urbanos de Braga (TUB), carreiras intermunicipais, ligações nacionais como a Rede Expressos e a FlixBus, ligações internacionais, e ainda o serviço direto para o Aeroporto. Trata-se de um dos maiores interfaces rodoviários do Norte de Portugal, e que é utilizada por milhares de passageiros por dia e estima-se que seja utilizado por entre 3 a 5 milhões de passageiros por ano.
É também, por consequência, a primeira imagem que milhares de pessoas têm de Braga quando chegam para trabalhar, estudar, viver, visitar ou simplesmente fazer transbordo para outro destino. E se o Arco da Porta Nova nos remonta para o século XVI, para o Neoclassicismo e para a riqueza do nosso património, a nossa Central de Camionagem leva-nos a uma outra bem diferente: a uma cidade que parece ter ficado parada nos anos setenta.
Não digo isto por figura de estilo: o edifício foi abriu ao público no finais de 1976, então sob a gestão da Rodoviária Nacional, e até hoje, cinquenta anos (!) depois, pouco ou nada mudou. Verificamos espaços comerciais abandonados, instalações envelhecidas, acessibilidades limitadas, construção deteriorada, paredes grafitadas, dando-nos a sensação de um ambiente de abandono, quase soviético, para uma cidade que vai crescendo compulsivamente à volta dele.
Ao longo das últimas décadas sucederam-se anúncios, estudos e projetos de requalificação, mas a realidade permanece inalterada. O que nos resta hoje é a esperança de uma articulação com a estação de camionagem, mas sempre sem reabilitar o espaço principal de camionagem na cidade, que se encontra hoje completamente desintegrada na vida urbana de Braga.
Basta olhar, por exemplo, para capitais de distrito como Viseu, Viana do Castelo, Vila Real (nem preciso de ir aos mais óbvios, como Lisboa e Porto). Todas dispõem de interfaces rodoviários mais modernos, confortáveis e bem integradas na cidade, alguns construídos de raiz nos últimos anos. Já Braga, enquanto que a terceira maior cidade do país, a nossa, que movimenta bastante mais passageiros, mantém-se preso a um passado sombrio, sem cor, e pior: sem um vislumbre de mudança.
Mesmo que tentássemos ignorar o bem-estar e o conforto dos milhares de bracarenses que passam diariamente pela Central de Camionagem, a Câmara poderia ver isto como um ponto essencial de mudança para uma cidade que se diz turística. Porque as primeiras impressões contam.
E numa cidade conhecida por deixar a porta aberta, a atual versão da nossa Central de Camionagem é, sem dúvida, uma porta que devia estar fechada há muito tempo.


