OpiniãoA IA também quer descobrir o próximo Pelé

A IA também quer descobrir o próximo Pelé

Artigo de Álvaro Rocha, Professor Universitário & World’s Top 1% Scientist.

© Álvaro Rocha

Durante décadas, o futebol viveu de olheiros, intuição, contactos e sorte. Um jovem talentoso precisava de ser visto no momento certo, pela pessoa certa, no campo certo. Muitos conseguiram. Muitos outros, provavelmente igualmente promissores, ficaram pelo caminho porque nasceram longe dos grandes centros, jogaram em campos periféricos ou simplesmente nunca tiveram oportunidade de mostrar o que valiam.

A inteligência artificial promete alterar esta realidade. No Brasil, país onde o futebol é quase uma linguagem nacional, começam a surgir plataformas digitais que permitem a jovens jogadores gravar vídeos com o telemóvel, realizar exercícios técnicos e submeter o seu desempenho a sistemas de análise automatizada. Algoritmos avaliam velocidade, controlo de bola, coordenação, capacidade técnica e outros indicadores que podem interessar a clubes, academias e olheiros.

A pergunta é provocadora: poderá a IA encontrar o próximo Pelé? Talvez não. O génio futebolístico nunca coube inteiramente numa estatística. Pelé, Maradona, Messi ou Cristiano Ronaldo não foram apenas jogadores tecnicamente superiores. Foram também inteligência de jogo, personalidade, competitividade, capacidade de decisão, resistência psicológica e criatividade em momentos irrepetíveis. Tudo isto é muito difícil de medir por vídeo ou por algoritmo.

Mas a verdadeira importância destas ferramentas talvez esteja noutro ponto. A IA pode não descobrir sozinha o próximo génio do futebol, mas pode impedir que muitos talentos continuem invisíveis. Num país com a dimensão do Brasil, e também em muitos outros contextos, incluindo Portugal, há milhares de jovens que nunca são observados por clubes profissionais. Não porque lhes falte talento, mas porque lhes faltam recursos, contactos ou proximidade geográfica. A tecnologia pode ajudar a reduzir essa desigualdade.

Esta possibilidade merece atenção também no Minho. O nosso território tem tradição desportiva, clubes formadores, jovens ambiciosos e muitas famílias que veem no desporto uma oportunidade de crescimento pessoal e, por vezes, social. Ferramentas digitais bem usadas poderiam complementar o trabalho dos treinadores e olheiros locais, dando maior visibilidade a jovens atletas de concelhos mais afastados dos grandes centros.

Mas convém evitar ilusões perigosas. A IA deve ser uma ferramenta de apoio, não um substituto da avaliação humana. O futebol joga-se com dados, mas também com emoção, contexto, esforço, disciplina e relação com a equipa. Um algoritmo pode sinalizar potencial; não deve decidir sozinho o futuro de uma criança ou adolescente.

Há ainda questões éticas importantes. Quem controla os dados dos jovens jogadores? Que garantias têm as famílias? Como evitar falsas promessas comerciais? Como impedir que plataformas explorem o sonho de crianças vulneráveis? A democratização do acesso ao futebol não pode transformar-se numa nova indústria de expectativas frustradas.

A inteligência artificial está a chegar ao futebol, como chegou à saúde, à educação, à indústria e aos escritórios. Usada com responsabilidade, pode abrir portas a quem antes ficava de fora. Usada sem critério, pode apenas criar novas desigualdades.

O próximo Pelé talvez continue a nascer num campo de terra, longe das câmaras e dos grandes estádios. A diferença é que, desta vez, talvez um telemóvel e um algoritmo ajudem alguém a vê-lo.

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