OpiniãoSão João de Braga: as origens de uma festa que é alma...

São João de Braga: as origens de uma festa que é alma da cidade

Artigo de Tiago do Val, membro da Assembleia de Freguesia de São Vicente pela Iniciativa Liberal.

© IL

O São João de Braga é muito mais do que uma festa popular. É uma das maiores manifestações identitárias da cidade e uma celebração que atravessa séculos, unindo fé, tradição, convívio e memória coletiva. Ao longo do tempo, esta festividade foi ganhando expressão até se tornar num dos símbolos mais fortes da cultura bracarense.

As origens do São João de Braga estão ligadas ao culto de São João Batista, figura central da tradição cristã e celebrada desde tempos remotos.

Caro leitor, todos os santos são venerados no dia da sua morte; no entanto, apenas São João Batista é celebrado no dia do seu nascimento. Este facto tem uma particularidade que está ligada à fundação da Igreja Católica.

Desde tempos remotos, o homem celebra em todo o planeta duas datas marcantes: o solstício de verão e o solstício de inverno. Em tempos difíceis, aquando da implantação da fé cristã e do cristianismo em todo o Império Romano, havia resistência por parte dos pagãos. Como tal, a Igreja decidiu apropriar-se destas duas datas, criando então a celebração do nascimento de São João Batista no solstício de verão e o nascimento de Cristo no solstício de inverno.

Por alguma razão, no Dia de São João não vemos casamentos nem missas; vemos, sim, alegria, emoção e divertimento. Isto porque o solstício de verão simboliza precisamente isso: abundância, prosperidade, fertilidade e, em suma, a vida no seu esplendor.

Com isto, a Igreja visou, fundamentalmente, apoderar-se das festas pagãs e transformá-las em dias de culto cristão.

Mas a história de São João Batista vai mais além desta particularidade. Os seus pais, já com uma idade avançada, não estavam em condições de ter um filho e, fruto de um milagre, sua mãe Isabel engravidou. Segundo a tradição, foi por intervenção do anjo São Gabriel que o facto aconteceu; seu pai Zacarias, perante tão grande milagre, ficou mudo como castigo, uma vez que desconfiava de tal milagre.

A falta de filhos na velhice era considerada uma vergonha para os judeus na época, e Zacarias rezava pelo nascimento de um filho com Isabel.

Outra particularidade é o facto de São João Batista ter sido o primeiro a reconhecer Jesus Cristo como o Messias.

João Batista viria mais tarde a ser decapitado por ordem de Herodes Antipas.

Em Braga, como noutras partes da Europa, a devoção religiosa foi dando forma a práticas populares que misturavam o sagrado e o festivo, numa lógica muito própria das comunidades do Minho.

Em Braga, a celebração acabou por se consolidar em torno da Capela de São João da Ponte, construída no século XVI por ordem de D. Diogo de Sousa, e a festa ganhou expressão municipal já no início do mesmo século.

Há ainda quem defenda uma origem mais antiga, associada à própria fundação de uma igreja dedicada a São João por volta de 1150, o que reforça a ideia de que a festa tem raízes medievais muito profundas.

Um dos aspetos mais marcantes desta festa é precisamente a sua dimensão identitária. Em Braga, o São João não é apenas celebrado; é vivido como parte da própria história da cidade. Os cortejos, a música, os arraiais e os elementos mais tradicionais ajudam a preservar uma herança cultural que passou de geração em geração e que continua a marcar o calendário bracarense, em suma uma celebração da vida, da abundância, da fertilidade, como o pagão faziam a milhares de anos.

Hoje, falar do São João de Braga é falar da cidade em estado de celebração. É falar de identidade, de pertença e de uma memória coletiva que resiste ao tempo. Mais do que um evento no calendário, é uma expressão viva da alma bracarense e uma das grandes referências festivas do Minho.

PARTILHE A NOTÍCIA

LEIA TAMBÉM

PUBLICIDADE

Últimas Notícias

POPULARES