OpiniãoMundo em Saldo: Leva três conflitos, paga dois

Mundo em Saldo: Leva três conflitos, paga dois

Artigo de José Rosa, deputado municipal pelo TB - TODOS BARCELOS.

© José Rosa

Há quem chefie com estatísticas, quem se esconda atrás da História… e depois há quem governe para o espelho. Este último grupo reconhece‑se facilmente, isto é: líderes de cabelo raro, mas resistente, geralmente loiro ou ruivo, gravatas berrantes e uma fé inabalável de que o mundo só começou a fazer sentido no exato momento em que chegaram ao poder. O currículo, curiosamente, costuma ter mais pólvora do que diplomacia.

Não é apenas uma questão de estilo, o problema começa quando o espetáculo se confunde com poder real. Fala‑se de paz com uma mão enquanto a outra mede forças, aplica sanções ou ensaia ameaças. O objetivo é ser lembrado como grande líder, de preferência com fotografia histórica, legenda grandiosa e, se possível, um prémio nobel da paz.

Para estes iluminados, o planeta não é uma comunidade de povos, é um tabuleiro de xadrez. As peças têm nomes de países, os peões são populações civis e as regras mudam conforme a conveniência do momento. Há territórios que se invadem, outros que se “libertam” e alguns que se pressionam até aceitarem acordos “históricos”. Históricos sobretudo para o discurso do vencedor, raramente para a vida de quem lá mora.

A guerra, entretanto, deixou de ser exceção e passou a produto. Vende‑se como segurança, embrulha‑se em patriotismo de ocasião e anuncia‑se como inevitável. Se corre mal, culpa‑se o passado. Se corre pior, culpa‑se o sistema internacional. Se corre razoavelmente bem, o mérito é todo do líder visionário, da sua gravata com ambições de cachecol e do seu penteado bravamente resistente ao vento da História.

O mapa‑mundo transformou‑se num catálogo promocional. Há conflitos em destaque, outros em saldo e alguns esquecidos numa prateleira qualquer. Ucrânia, Médio Oriente, África que raramente entra na conversa, Ásia sempre “em observação”. Tudo organizado como se o planeta fosse uma montra de crises, com renovação automática e possibilidade de instabilidade crónica.

Pelo meio, a União Europeia finge indignação, mas continua a fazer negócios, compra gás e petróleo com quem diz condenar. A coerência dá jeito até ao momento em que entra em conflito com o fornecimento de energia. Já a ONU tenta cumprir o seu papel possível. Reúne, apela, condena, pede contenção. O seu líder surge paciente, voz serena, inglês e dicção insegura e esforçada, repetindo palavras certas para plateias que já decidiram não ouvir. O resultado é quase poético, ou seja discursos corretos num mundo completamente ao contrário.

A ironia maior está aqui. Estes homens fortes falam incessantemente de grandeza, legado e força, mas o que acumulam são destroços, deslocados e medo. Confundem liderança com domínio, estratégia com barulho e paz com momento fotográfico. Querem estátuas enquanto deixam ruínas, desejam medalhas enquanto distribuem escombros.

Talvez um dia o mundo volte a ser tratado como casa comum e não como negócio em liquidação total. Até lá, continuamos a acumular guerras como pontos num cartão de fidelização e a tolerar líderes de ego inflacionado, cabelo cada vez mais raro e teimoso e certezas excessivas, para quem acha que mandar é o mesmo que fazer o que quer.

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