
Há catástrofes que não escolhem ideologias, partidos ou regimes. Escolhem apenas o lugar onde acontecem. E quando a terra treme, como aconteceu recentemente na Venezuela, a dor torna-se universal. Aos mortos, aos desaparecidos, aos feridos e às famílias que vivem horas de angústia sem notícias dos seus entes queridos, é devido um sentimento de profunda solidariedade e respeito.
Os números continuam a evoluir à medida que decorrem as operações de busca e salvamento. As autoridades venezuelanas contabilizaram já milhares de vítimas entre mortos e feridos, enquanto dezenas de milhares de pessoas permanecem desalojadas ou procuram familiares. Várias organizações internacionais alertam para a dimensão humanitária do desastre.
Mas esta tragédia obriga também a uma reflexão mais profunda.
A Venezuela não é um pequeno país perdido no mapa. Tem cerca de 28 milhões de habitantes e possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, representando mais de 17% das reservas globais conhecidas. Durante décadas, foi vista como uma potência energética com recursos suficientes para garantir prosperidade às gerações futuras.
Contudo, a história ensina-nos que a riqueza natural, por si só, não garante desenvolvimento nem segurança. Quando ocorreram os sismos que devastaram várias regiões do país, voltaram a surgir relatos de edifícios que não resistiram, hospitais sobrelotados, infraestruturas degradadas e populações obrigadas a iniciar buscas pelos próprios meios devido à escassez de recursos disponíveis.
A pergunta impõe-se: porque é que um fenómeno natural se transforma numa catástrofe humana de proporções tão gigantescas?
A resposta raramente está apenas na força da natureza. Está também na resistência das construções, na qualidade do planeamento urbano, na preparação dos serviços de proteção civil, na robustez dos hospitais e na capacidade do Estado responder rapidamente quando o pior acontece.
A tragédia venezuelana demonstra que o verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas em barris de petróleo, em exportações ou em recursos existentes no subsolo. Mede-se igualmente na capacidade de proteger vidas quando tudo falha.
Nenhum país está imune a terramotos, cheias, incêndios ou tempestades. A diferença está na forma como se prepara para eles. Onde existem infraestruturas resilientes, serviços de emergência equipados e sistemas de saúde capazes de responder, a natureza continua a ser poderosa, mas a dimensão da tragédia humana é menor.
Por isso, mais do que uma notícia que hoje ocupa manchetes e amanhã será substituída por outra, o drama da Venezuela deve servir de alerta para todos. A prevenção é silenciosa e raramente gera aplausos. Mas quando falta, as suas consequências tornam-se ensurdecedoras.
Hoje é a Venezuela. Amanhã poderá ser qualquer outro país.
E perante o sofrimento de milhares de famílias, resta-nos uma certeza simples: nenhuma riqueza nacional vale mais do que a capacidade de proteger os seus cidadãos quando estes mais precisam dela.
Às vítimas, aos desaparecidos, aos feridos e a todos os venezuelanos atingidos por esta tragédia, deixo a minha mais sentida solidariedade.


