
Celebra‑se hoje o Dia do Trabalhador. Um dia solene, quase épico, em que se homenageia quem trabalha… trabalhando. É bonito. É simbólico. É confortavelmente inofensivo. Mas, convenhamos, serve sobretudo para aliviar consciências por 24 horas.
Durante um dia inteiro, o trabalhador é rei. Tem discursos inflamados, posts emocionados no LinkedIn, frases inspiradoras em fundo azul no Instagram e políticos que redescobrem subitamente palavras como “dignidade” e “justiça social”, como quem encontra moedas esquecidas no bolso de um casaco que já não usava. Amanhã, esse entusiasmo regressa ao sítio certo: a gaveta.
O trabalhador moderno é uma figura admirável. Resiliente, polivalente, multitarefas. Faz milagres com prazos impossíveis, salários possíveis e expectativas irreais. Trabalha “em equipa”, normalmente sozinho. Tem “autonomia”, desde que não a exercite em excesso. E é “flexível”, essa palavra elegante que significa estar sempre disponível, mesmo quando não está, mesmo quando não pode, mesmo quando já não devia.
Fala‑se muito em mérito, mas quase nada em descanso. Fala‑se em produtividade, raramente em esgotamento. Fala‑se em crescimento, nunca se especifica de quem. O trabalhador cresce em funções, em responsabilidades, em stress. Outros crescem em gráficos, relatórios e apresentações convincentes.
Este é também o dia em que empresas publicam mensagens calorosas a agradecer “às suas pessoas”. Pessoas essas que, no resto do ano, são tratadas como recursos e, de preferência, recursos discretos, baratos e permanentemente motivados. A gratidão é grande, mas cuidadosamente medida para não caber na folha salarial.
Há flores simbólicas, palavras bonitas e homenagens bem compostas, mas falta o essencial. Tempo. Tempo para viver, para errar sem castigo, para descansar sem culpa, para existir fora do ecrã, do cartão de ponto e da reunião interminável que podia ter sido um email e que, mesmo assim, ninguém precisava de ler.
E, no entanto, cá estamos. A trabalhar. Sempre. Porque o país anda às costas de quem carrega mais do que pode, ganha menos do que precisava e ainda pede desculpa por sair a horas. De quem aguenta, adapta‑se, resiste e segue, mesmo quando o cansaço já não pede licença.
Por isso, feliz Dia do Trabalhador. Aproveite a homenagem enquanto dura. Amanhã regressamos à normalidade, essa entidade exigente, orgulhosa e pouco agradecida, que nos garante que sem trabalho nada anda, mas que insiste em esquecer quem o faz andar. Entretanto, sorria. A produtividade agradece. E os relatórios também.


