
A manipulação não nasceu com a internet. Sempre que existiu poder, existiu narrativa para o justificar. A diferença é que hoje a velocidade e a escala da tecnologia transformaram uma prática antiga numa máquina global e viciante.
A VELHA ARTE
No Antigo Egipto, os faraós eram representados como deuses. Não era apenas religião: era comunicação estratégica. Obedecer ao faraó equivalia a obedecer ao divino. Se fosse hoje, essas imagens estariam em outdoors digitais, hashtags oficiais e vídeos patrocinados no TikTok.
No século XVI, a utilização massiva da imprensa permitiu que tanto católicos como protestantes espalhassem panfletos que inflamavam multidões. Muitas vezes continham exageros, meias- verdades ou mentiras descaradas. O que era um folheto em papel, hoje seria um post viral no Facebook ou no X, partilhado milhões de vezes em minutos.
No século XIX, jornais assumidamente ligados a partidos políticos criavam manchetes fabricadas para favorecer uns e destruir outros. A imparcialidade era uma ilusão. Hoje, basta uma notícia de última hora ou uma push notification no telemóvel.
E no século XX, regimes totalitários levaram esta arte ao extremo. A propaganda nazi usou a rádio e o cinema para criar um culto de massas. No Ruanda, a rádio das Mil Colinas incitou ao genocídio em 1994. Palavras transmitidas em ondas de rádio bastaram para transformar vizinhos em inimigos mortais. Hoje, seriam tweets ou lives no YouTube, replicados por milhares de bots.
Mais perto de nós, em 2003, a invasão do Iraque foi justificada com base em “armas de destruição massiva” que nunca existiram. As primeiras páginas de jornais, relatórios e discursos oficiais alinharam-se para fabricar uma narrativa e lançar uma guerra. Hoje, com inteligência artificial e deepfakes, a mesma estratégia teria uma eficácia ainda mais devastadora.
A VERSÃO 5G
Na verdade, a essência não mudou. O que mudou foi a velocidade com que um rumor percorre o mundo inteiro, bastando apenas alguns minutos para que chegue aos telemóveis de milhões de pessoas. E de um modo ainda mais subtil, porque já não surge como propaganda oficial, mas disfarçado de opinião, meme ou notícia de última hora.
Os algoritmos foram desenhados para nos prender, reforçar crenças e alimentar a nossa indignação — mesmo quando discutimos com bots nas caixas de comentários.
Mas não é só o conteúdo que manipula: é também o seu formato. O scroll infinito, as notificações, os filtros personalizados — tudo serve para reter a atenção e moldar perceções. E até os mais idóneos seguem a tendência. Basta ver a última atualização do portal Sapo, que oferece agora conteúdos em formato story.
AS CONSEQUÊNCIAS
Vivemos rodeados de informação, mas não necessariamente de conhecimento e de pessoas convencidas de que estão informadas, mas que repetem slogans sem ter massa crítica.
A sociedade está mais polarizada e o espaço público transformado num ringue de combate, em vez de um fórum de debate. E talvez o mais perigoso: cada um acredita que pensa por si, não percebendo que vive preso na sua bolha algorítmica e que foi conduzido, passo a passo, até chegar a essa “opinião própria”.
O ANTÍDOTO
O problema não é novo, mas nunca foi tão urgente criar defesas.
É obrigatório desconfiar do óbvio, mesmo quando este vem de fontes supostamente confiáveis. A necessidade que os órgãos de comunicação social têm em ser os primeiros a publicar reduz a verificação dos factos. Procurar a origem e comparar fontes é essencial e se não houver certeza, o melhor é não partilhar.
Numa época em que parece ganhar quem grita mais alto, valorizar o silêncio e a reflexão no meio do ruído, é regra de ouro.
Deveríamos ensinar pensamento crítico nas escolas com a mesma seriedade com que se ensina matemática.
A manipulação é intemporal. Apenas ganhou alcance global a uma velocidade sem precedentes.
Por isso, o desafio de hoje é ainda maior: na era 5G não falta informação. Falta coragem para pensar sozinho.
Artigo de Hélder da Rocha Pereira.


