
As eleições autárquicas de 2025 trouxeram um mapa político inédito à União de Freguesias, onde a pluralidade substitui as maiorias e o diálogo se torna condição essencial de governabilidade.
A União de Freguesias de Real, Dume e Semelhe afirma-se hoje como um território de grande relevância demográfica e política no concelho de Braga. Quinta maior em número de eleitores, esta União tornou-se, pela sua dimensão, diversidade e crescimento urbano, um retrato vivo das transformações políticas que atravessam não só o concelho, mas também o país.
Entre 2021 e 2025, o número de eleitores inscritos cresceu mais de 6%. Também o número de votantes aumentou, reduzindo a taxa de abstenção em quase dez pontos percentuais. Esta evolução acompanha a tendência nacional: as eleições autárquicas de 2025 registaram a taxa de abstenção mais baixa desde 2005 — sinal de uma maior mobilização cívica e de um renovado interesse dos cidadãos pela vida local. Em boa medida, este fenómeno poderá, igualmente, refletir o desejo de mudança após vários anos de lideranças longas e consolidadas.
Contudo, a explicação não se esgota na mobilização política. A expansão urbana e a chegada de novos residentes alteraram o perfil do eleitorado: menos fiel às estruturas partidárias tradicionais, mais atento às dinâmicas nacionais e, por isso, mais volátil nas suas escolhas.
Real, Dume e Semelhe sentiram esta transformação de forma clara. Após três mandatos de liderança socialista, o Partido Socialista apresentou Adolfo Reis como sucessor de Francisco Silva. Apesar do esforço em conciliar continuidade e renovação, os socialistas registaram uma quebra significativa, passando de 46,7% para 28,8% — uma redução de quase 18 pontos percentuais. Ainda assim, a presença e o envolvimento do autarca cessante, nomeadamente durante a campanha eleitoral, foram determinantes para muitos eleitores, garantindo alguma continuidade na confiança da população.
A coligação Juntos por Braga (PSD/CDS/PPM) confirmou-se como principal força de oposição, aumentando o número absoluto de votos e mantendo uma vantagem superior a 700 votos face à candidatura seguinte. Apesar de uma ligeira descida percentual, a coligação demonstrou possuir uma base sólida e uma estrutura estável na freguesia, mesmo num cenário de maior fragmentação à direita. Curiosamente, tem apresentado candidatos diferentes em todas as eleições desde a criação da União. Se conseguir estabilizar a liderança e definir uma estratégia coerente, poderá reforçar a sua posição e afirmar-se como alternativa no futuro.
O verdadeiro sinal dos tempos surgiu com a emergência de novos protagonistas. O CHEGA quase triplicou a votação, alcançando 11,9%. A Iniciativa Liberal duplicou, atingindo 9,7%. A CDU (PCP-PEV), com um candidato local de longa experiência, subiu cerca de meio ponto percentual. O LIVRE estabeleceu-se com 2%, enquanto o Bloco de Esquerda sofreu uma forte quebra, fixando-se em 1%. O movimento Amar e Servir Braga entrou em força, com 12% dos votos. Estes resultados revelam que a política local deixou de ser um jogo de duas cores, transformando-se num mosaico de sensibilidades, projetos e vozes.
A nova distribuição de mandatos ilustra bem essa diversidade. Sem maiorias absolutas, o mapa político alterou-se profundamente: em 2021, o PS elegia oito mandatos, a coligação Juntos por Braga quatro e a CDU um. Em 2025, o PS elegeu quatro; o Juntos por Braga, três; o Amar e Servir Braga e o CHEGA, dois cada; e a IL e a CDU, um cada. Treze lugares e seis forças políticas — um equilíbrio delicado que exigirá diálogo, negociação e sentido de responsabilidade.
Com uma Assembleia de Freguesia plural, o cidadão melhor posicionado da lista vencedora e, provavelmente, o presidente a ser eleito, Adolfo Reis, enfrentará o desafio de unir e construir pontes. A governabilidade dependerá menos da força dos votos e mais da capacidade de entendimento entre diferentes sensibilidades políticas.
A coligação Juntos por Braga, pela sua consistência e votação, assume naturalmente o papel de principal força de oposição. Os novos protagonistas — Amar e Servir Braga, CHEGA, IL — aliados à presença já consolidada da CDU, poderão trazer vitalidade ao debate político local, desde que optem por uma intervenção construtiva e próxima das pessoas.
Em síntese, a União de Freguesias de Real, Dume e Semelhe reflete uma realidade política em transformação. Os eleitores estão mais atentos, exigentes e menos previsíveis. O poder, hoje, assenta menos no domínio e mais no diálogo.
O mandato que agora se iniciará será, por isso, marcado pela necessidade de consenso, equilíbrio e compromisso. O futuro da governação local dependerá da maturidade com que os seus representantes saibam transformar a diversidade em força comum e em progresso partilhado.


