OpiniãoTrabalho não é mercadoria: É vida

Trabalho não é mercadoria: É vida

Opinião de Rui Vilaça.

© Rui Vilaça

Portugal vive um momento decisivo. O pacote laboral que se apresenta como “modernização” é, na verdade, um retrocesso histórico disfarçado de progresso. Por trás da retórica da flexibilidade, esconde-se uma lógica que transforma trabalhadores em peças descartáveis, sacrificando estabilidade e dignidade em nome de uma produtividade sem alma.

Facilitar despedimentos, prolongar contratos precários e desregular horários não são ajustes técnicos: são escolhas políticas que revelam prioridades. Quando se permite que a insegurança seja regra, está-se a condenar milhares de pessoas a viver num terreno movediço, sem futuro e sem voz. Isto não é evolução é regressão social.

A história ensina-nos que direitos não caem do céu. Foram conquistados com luta, desde o 25 de Abril, quando se ergueram muralhas contra a exploração: salário mínimo, descanso semanal, negociação coletiva. Cada conquista foi uma pedra na construção de uma sociedade mais justa. E sempre que essas muralhas foram atacadas, como em 2013, sob a austeridade da troika o resultado foi devastador: desemprego recorde, emigração em massa, vidas suspensas.

Hoje, enquanto países como França e Alemanha limitam contratos temporários a 18 meses e exigem provas robustas para despedimentos, Portugal discute contratos a prazo de 3 a 5 anos e flexibilização quase total. É como construir casas de palha num terreno onde outros erguem fortalezas. Esta escolha não é inevitável: é deliberada, e serve interesses que não são os da maioria.

Perante isto, não basta indignar-se. É preciso agir. Organizar-se, participar, exigir. Porque cada silêncio é uma pedra retirada da muralha que nos protege. A história não se escreve com resignação, mas com coragem coletiva. Se queremos um futuro onde trabalhar signifique viver com dignidade, temos de lutar por ele, nas ruas, nos locais de trabalho, nas consciências.

Como disse Victor Hugo: “Nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou.”

E a ideia que chegou é simples e inadiável: o trabalho é vida, e a vida não pode ser mercadoria.

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