OpiniãoTrabalhar muito ou ganhar pouco? A confusão portuguesa

Trabalhar muito ou ganhar pouco? A confusão portuguesa

Artigo de José Rosa, deputado municipal pelo TB-Todos Barcelos.

© José Rosa

Em Portugal há uma frase que todos já ouvimos, repetida até à exaustão entre cafés e jantares de família: “Lá fora trabalham mais do que cá.” Normalmente vem acompanhada de um encolher de ombros, como quem aceita uma verdade absoluta, quase genética.

Mas convém desmontar este mito com alguma frontalidade.

Os trabalhadores portugueses no estrangeiro não trabalham mais por algum chip escondido no ADN. Trabalham, isso sim, em contextos onde o esforço é reconhecido, onde o salário compensa e onde o sacrifício tem retorno. É uma diferença simples, mas que muda tudo. Porque motivação não nasce do discurso, nasce do respeito. E, muitas vezes, esse respeito mede-se ao fim do mês.

Cá dentro, continuamos a alimentar a narrativa cómoda de que o problema está do lado do trabalhador. Falta produtividade, falta empenho, falta isto e aquilo. A conversa do costume. O que raramente se discute com a mesma energia é o resto da equação.

Há um problema estrutural evidente: um tecido empresarial ainda demasiado preso a modelos de baixo valor acrescentado, com pouca aposta na inovação, na qualificação e na diversificação de negócios. Continuamos, em muitos casos, a competir pelo preço, que é a forma mais rápida de estacionar salários e expectativas.

Depois há o lado económico mais amplo, onde se insiste em espremer sempre os mesmos. Sempre que há crise, aperto, incerteza ou simplesmente necessidade de “ajustar”, a solução parece recair, inevitavelmente, sobre quem trabalha. Mais horas, mais carga, mais pressão. E, do outro lado, uma evolução salarial que anda ao ritmo de um relógio avariado. Não pode ser sempre assim.

Um empresário conhecido da região de Braga, daqueles que não fala para agradar, disse há dias algo que devia ficar escrito à porta de muita empresa: “…trabalhadores não faltam. Metam o dinheiro em cima da mesa que eles aparecem…”. Curto, direto, sem floreados e, sobretudo, difícil de rebater.

Não podem ser sempre os trabalhadores a pagar a fatura. Seja a fatura da crise, da falta de competitividade, da ausência de estratégia ou da incapacidade de antecipar mudanças. Há um limite para esta lógica de empurrar responsabilidades para baixo, e, verdade seja dita, estamos perigosamente perto dele há demasiado tempo.

É preciso dizer com clareza: o problema não se resolve com moralismos sobre esforço individual. Resolve-se com decisões. Com investimento sério na modernização das empresas. Com visão económica que vá além do imediato. Com liderança capaz de perceber que valor não se cria à custa de esmagar quem produz, mas sim criando condições para produzir melhor.

Porque, no fim, a questão não é saber se os portugueses trabalham mais ou menos. Essa discussão já devia estar ultrapassada.

A questão é outra: estamos, enquanto país, a dar motivos suficientes para que as pessoas queiram trabalhar cá e ficar?

Enquanto essa resposta for um silêncio desconfortável, continuaremos presos ao mesmo ciclo: exigir mais, pagar pouco, e depois admirar-nos quando os melhores fazem as malas.

E, sinceramente, já começa a não haver desculpa para tanta repetição.

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