
A importância do pagamento pontual e o seu impacto na economia nacional foram os temas centrais da conferência “Pagar a horas – fazer crescer Portugal”, realizada na manhã desta terça-feira no pequeno auditório do Forum Braga.
Promovida pela ACEGE, em colaboração com a InvestBraga e a AEB, esta iniciativa decorre do lançamento do Programa Compromisso Pagamento Pontual e faz ainda parte do Programa Nacional “COMPROMISSO PAGAMENTO PONTUAL”, para o qual as empresas estão a ser desafiadas a aderir.
O evento reuniu especialistas que, através de diferentes perspetivas, que reafirmaram “a urgência de mudar a cultura de pagamentos para apoiar a sobrevivência das empresas e o crescimento económico do país”.
O evento foi aberto por Fátima Amorim, da ACEGE Braga, que se referiu ao impacto negativo do não cumprimento dos prazos. “É um flagelo que prejudica o mercado, que mina a confiança e que atrasa o crescimento das empresas. Corrompe e distorce as condições de equilíbrio do mercado. Potencia a manipulação de resultados e fere a imagem verdadeira do ato financeiro das empresas”, sustentou.
Gil Carvalho, diretor da Agência para a Dinamização Económica da InvestBraga, destacou a importância do tema. “O grande objetivo desta ação é sensibilizar para a necessidade de cumprir com os prazos de pagamento por parte das empresas, de forma a melhorara o desempenho da nossa economia, um tema que pela sua importância levou a InvestBraga, não só a apoiar a realização desta ação enquanto Agência para a Dinamização Económica, mas também a aderir a esta medida enquanto empresa municipal”, frisou.
Para Daniel Vilaça, presidente da AEB, “este é um tema de enorme relevo para os associados reforçou a relevância do tema para os associados”. “As empresas poderem ter fluxo de caixa é muito importante. Enquanto associação empresarial queremos fomentar o pagamento pontual e fazer com que as empresas possam crescer com esta cultura”, referiu.
Na Mesa Redonda, Maria João Cardoso, da INFORMA, deteve-se sobre a realidade e impacto dos pagamentos, como o risco comercial das empresas provocado pelos atrasos. Os principais indicadores dos comportamentos de pagamento das empresas portuguesas apontam que 18,1% são as que pagam dentro do prazo acordado, 5,5% das empresas já pagam com mais de 90 dias de atraso. Comparativamente com empresas com pontuação ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa) elevado, as restantes demoram-se mais 6 dias em média a realizar os pagamentos aos fornecedores. “Empresas mais sustentáveis são mais cumpridoras nos pagamentos”, salientou.
Os dados refletem que 68,2 mil milhões de euros são devidos aos fornecedores e que, assim, 45 mil empresas estão em risco de delinquency médio-alto e elevado. Em dezembro de 2022, atingiu-se o valor mais baixo de atraso nos pagamentos, que aumentou para 23,1 dias em maio de 2024.
A cultura de incumprimento de pagamentos é transversal a todos os setores de atividade e regiões. O Norte encontra-se no meio da tabela, com a Madeira com uma média de 26,8 dias e o Algarve com 21,5 dias. No Norte, apenas 17,6% das empresas pagam dentro dos prazos, sendo que as empresas de menor dimensão se revelam as mais cumpridoras.
Face ao panorama internacional, Portugal está entre os países menos cumpridores dos prazos de pagamento, ocupando o terceiro lugar dos últimos, acima da Roménia e do Egito. Nos primeiros lugares estão a Dinamarca, a Polónia e a Nova Zelândia. Desde 2007, tem crescido a divergência no cumprimento de pagamento entre Portugal e a média europeia – o valor diverge em 29 pontos percentuais, sendo que na EU 47,7% das empresas pagam a horas.
Estes números provocam a ineficiência da gestão, um menor investimento (66%) e concorrência desleal. 25% das falências na Europa são causadas pelo atraso nos pagamentos, que também provoca desemprego. Nos últimos 5 anos, foram destruídos 72.339 postos de trabalho, com uma perda média anual de 14.468 postos, representando mais de 2,6 mil milhões de euros. A representante da INFORMA declarou que “O pagamento pontual não é uma decisão ou escolha da empresa, é uma obrigação. Não pagar aos fornecedores, podendo-o fazer, é uma falta ética grave”.
Jorge Líbano Monteiro destacou a importância do projeto “Compromisso Pagamento Pontual” e dirigiu-se às empresas bracarenses que embarcaram neste desafio. “Vocês fazem a diferença. Se não houver compromisso, não há confiança. Não faz sentido uma PME líder receber fundos comunitários e depois não ter um comportamento ético no que toca aos prazos de pagamento. Estamos numa zona em que apenas 17% das empresas pagam no prazo estabelecido. Isso reflete-se em 130 mil desempregados nos próximos 5 anos. Podemos estar a acelerar numa vertente de investimento, mas estamos a descuidar o resto pelo facto de haver atrasos nos pagamentos”, disse.
Os objetivos da Compromisso Pagamento Pontual passam por sensibilizar e promover em cada líder a importância de pagar no prazo acordado, ajudar a promover em cada organização uma cultura de pagamentos a horas, que permita tornar previsível a data de recebimento e sensibilizar as empresas e o Estado para a importância de pagar a horas para o desenvolvimento de Portugal.
Ricardo Rio, presidente do Município de Braga e InvestBraga, encerrou a sessão, reforçando a dimensão ética do compromisso das empresas e instituições com aqueles que são os seus fornecedores, parceiros e clientes. “O não cumprimento com o pagamento pontual mina o laço de confiança entre as organizações”, declarou.
No contexto do programa Acelerar a Economia, recentemente apresentado pelo ministro da Economia Pedro Reis, uma das propostas é a redução dos prazos de pagamento e a criação de mecanismos mais apertados para o cumprimento. “Tudo o que seja garantir o cumprimento de prazos é injetar dinheiro na economia, é desonerar as empresas de custos financeiros desnecessários, o que é uma mais-valia para as partes envolvidas e acaba por gerar maior atividade económica por força dessa maior disponibilidade de recursos financeiros”, acrescentou o autarca de Braga.
Os 2.483 aderentes ao Compromisso Pagamento Pontual representam quase o pleno do universo municipal. A única empresa que não fica abrangida é a BragaHabit, devido às suas dificuldades de cobrança e, portanto, maior dificuldade de fazer face aos seus compromissos com terceiros. “No futuro, esperamos alcançar todo o universo municipal, além da Câmara Municipal, Theatro Circo, InvestBraga, TUB e Agere. Faremos por continuar neste grupo de elite”, finalizou o edil.
A conferência incluiu a entrega de diplomas às empresas aderentes, numa ação simbólica que pretende valorizar as instituições cumpridoras.


