OpiniãoQuando o 'like' fácil substitui o debate sério

Quando o ‘like’ fácil substitui o debate sério

Artigo de Bruno Alves Vaz, consultor de software de gestão.

© Bruno Alves Vaz

Rui Rocha chegou à política local bracarense com um nível de visibilidade pouco comum. Poucos meses antes das últimas eleições autárquicas, tinha sido candidato a primeiro-ministro, presença frequente em debates televisivos e entrevistas em horário nobre, o que lhe conferia uma notoriedade rara numa eleição em Braga. Era, por isso, um candidato que partia com uma vantagem evidente em termos de reconhecimento público.

Contudo, a democracia não se decide em estúdios nem em tempo de antena. Decide-se nas urnas. E os votos acabaram por mostrar algo simples: a projeção nacional não garantiu uma força local equivalente. A imagem de “líder nacional” não se traduziu automaticamente em implantação política na cidade, e o resultado ficou aquém das expectativas que naturalmente se criaram em torno de uma candidatura com tamanha visibilidade.

Após esse desfecho, muitos esperariam uma oposição firme, exigente e focada na análise dos problemas concretos da cidade, através do escrutínio rigoroso, do estudo dos dossiers e da apresentação de alternativas. Esse é, aliás, o papel mais difícil e também o mais relevante numa democracia local. No entanto, Rui Rocha optou recentemente por um caminho diferente ao lançar um “concurso do melhor buraco de Braga”. É uma queda de patamar difícil de ignorar: um protagonista de palco nacional reduzir a intervenção política a “trends” nas redes sociais, pouco compatíveis com a responsabilidade de servir a cidade.

A iniciativa, mais próxima de uma manobra de marketing político do que de fiscalização substantiva, levanta uma questão legítima sobre o tipo de contributo político que melhor serve a cidade. É evidente que existem buracos nas estradas, uma realidade que qualquer pessoa que circule diariamente em Braga conhece bem. Mas também não é uma surpresa. As semanas de chuva intensa e intempéries agravaram o desgaste das infraestruturas rodoviárias em muitos municípios portugueses, Braga incluída.

Importa ainda enquadrar um dado essencial que nem sempre surge com clareza no debate público: o atual Presidente da Câmara está em funções há pouco mais de 100 dias. Num contexto meteorológico adverso e persistente, muitas intervenções assumem caráter necessariamente provisório, destinadas a mitigar riscos e danos enquanto as condições não permitem obras estruturais duradouras. Qualquer pessoa compreende que, não sendo as intervenções desejáveis, são as intervenções possíveis. Não se trata de retórica política, trata-se de uma condicionante técnica evidente.

A política séria faz-se precisamente neste plano menos visível e menos mediático. Exige levantamento técnico das zonas críticas, definição de prioridades, planeamento de intervenções, critérios claros de investimento e soluções que previnam a repetição dos problemas, desde sistemas de drenagem adequados ao reforço das bases do pavimento. Se o objetivo é fiscalizar, então esse deveria ser o centro do debate: que alternativas são propostas, que prioridades são defendidas e como seriam executadas.

Porque chamar a atenção para um problema é fácil; resolver é substancialmente mais exigente.

Entretanto, foi já assumida a preparação de um plano abrangente de requalificação da rede viária, destinado a intervir de forma sistemática assim que as condições meteorológicas permitirem intervenções estruturais consistentes. Esse é o caminho menos ruidoso, mas o verdadeiramente transformador.

Há ainda uma nota politicamente curiosa que merece registo. Em mais do que uma ocasião, a Iniciativa Liberal em Braga tem surgido alinhada com posições do Partido Socialista em votações e entendimentos pontuais. Nada de ilegítimo na dinâmica democrática, mas a coerência política continua a ser um fator relevante para a confiança dos eleitores, sobretudo quando o discurso público assenta na ideia de renovação.

Quem governa decide, executa, corrige e enfrenta a complexidade inevitável de gerir uma cidade. Já a oposição, que não tem de concordar, tem pelo menos a responsabilidade de contribuir para um debate público útil e à altura dos desafios.

Porque na política local, mais importante do que apontar buracos é mostrar como se constroem caminhos.

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