OpiniãoO voto não é um Seguro

O voto não é um Seguro

Artigo de Hélder da Rocha Pereira.

© Hélder da Rocha Pereira

O chamado voto útil tornou-se uma das ideias mais repetidas e menos questionadas da política portuguesa. Aparece sempre nos momentos decisivos, invocado como um ato de responsabilidade, quase como um dever cívico superior.

Na prática, é muitas vezes outra coisa.

O voto útil nasce do medo. Medo de desperdiçar o voto. Medo de ajudar o adversário. Medo de arriscar numa escolha clara. Em vez de votar em quem melhor representa uma visão de futuro, vota-se em quem parece ter mais hipóteses de ganhar. Não é um voto por convicção. É um voto defensivo.

Esta lógica tem consequências profundas. Quando o voto deixa de ser uma afirmação de ideias e passa a ser um cálculo, o sistema fecha-se sobre si mesmo e as alternativas ficam eternamente à margem, não porque não tenham valor, mas porque nunca lhes é dado espaço para crescer.

Os grandes partidos mantêm-se grandes não por mérito, mas por inércia.

Há quem diga que o voto útil é pragmatismo. Em certos contextos extremos, admito que o possa ser. Quando estão em causa valores fundamentais da democracia, pode fazer sentido travar um perigo imediato. O problema é quando essa exceção se transforma em regra e, em Portugal, transformou-se.

O resultado é visível. Governos sem mandato forte. Lideranças sem coragem política. Reformas adiadas. Decisões empurradas para a frente e um país a gerir o presente enquanto o futuro passa ao lado.

Votar apenas para evitar que outro ganhe é abdicar de escolher verdadeiramente. É aceitar o menos mau como destino. É trocar ambição por sobrevivência.

Uma democracia saudável precisa de risco. Precisa de escolhas claras, mesmo quando são desconfortáveis. Precisa de eleitores que estejam dispostos a assumir consequências e não apenas a evitá-las.

O voto útil pode ganhar eleições. Mas raramente constrói países. Um povo que vota sempre por medo acaba governado pelo medo.

E quando o medo se torna critério de escolha, a política deixa de ser um espaço de visão e passa a ser apenas um exercício de contenção. Não se escolhe para avançar, escolhe-se para não cair. Não se vota para mudar, vota-se para manter tudo em limites considerados seguros.

O problema é que o mundo não espera por quem joga sempre pelo seguro. Enquanto outros países arriscam, reformam e decidem, nós adiamos, ponderamos e voltamos a escolher o mesmo, convencidos de que a estabilidade justifica tudo.

O voto útil não é neutro. Produz resultados. Reforça os mesmos atores, os mesmos discursos vagos, as mesmas promessas recicladas. Alimenta lideranças que não precisam de ser claras, apenas suficientemente indefinidas para não assustar ninguém.

No fim, o voto útil diz menos sobre quem é eleito e mais sobre quem vota. Diz que prefere a previsibilidade ao confronto com ideias. Diz que aceita o conhecido mesmo quando sabe que não chega. Diz que confunde prudência com resignação.

E um país que confunde resignação com responsabilidade acaba por se resignar ao pouco, ao lento e ao medíocre, convencido de que não havia alternativa.
Vota Cotrim e não jogues pelo Seguro. Vota por Portugal.

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