
Visitar o centro de acolhimento “O Poverello”, em Braga, é confrontar-se com o essencial: a vida, nos seus momentos mais frágeis, permanece merecedora de respeito, compaixão e dignidade. É impossível cruzar aqueles corredores sem sentir a viva presença dos valores que norteiam esta instituição — princípios cristãos, compromisso social, equidade, humanização, ética e uma transparência que se vê, sente e respira.
Em pleno coração do distrito de Braga, “O Poverello” ergue-se como exemplo raro de excelência na prestação de cuidados continuados e paliativos, reconhecido pelo Serviço Nacional de Saúde pela qualidade rigorosa com que acompanha quem mais precisa. Contudo, mais do que paredes, equipamentos ou números, há ali uma filosofia inquestionável: cuidar até ao último sopro, sem nunca desistir da vida.
Quem defende a dignidade do fim da vida, resiste à tentativa fácil de esquecimento ou à pressão de atalhos fúnebres. “O Poverello” insiste na alternativa natural e cristã aos extremos do abandono e da eutanásia, mostrando como o final pode ser acompanhado de doçura, clemência, e, sobretudo, sentido de responsabilidade. Não podemos evitar o fim, mas podemos—devemos!— evitar a dor e o desamparo.
No entanto, é impossível não sentir indignação perante a contraposição gritante entre a procura que existe por estes cuidados e os obstáculos colocados pelo Estado. Braga está cronicamente deficitária em camas para cuidados continuados, com instituições como a Santa Casa da Misericórdia de Braga a manter camas fechadas por questões contratuais, enquanto “O Poverello” comprova que, se duplicasse ou triplicasse o espaço, não faltariam usuários para ocupar cada quarto. E, mesmo assim, vê os seus esforços trabalhados por regras na alocação de camas e na celebração de contratos com a Segurança Social e o Ministério da Saúde.
É ainda de assinalar o insólito: o Hospital de Braga não referencia doentes para o “O Poverello”, e metade dos seus utilizadores são provenientes de outros distritos vizinhos. A realidade é clara — as necessidades superam em muito as respostas oferecidas, mas quem quer servir de verdade é impedido. Entre burocracias e opções políticas, a defesa da vida e das pessoas mais frágeis é secundária, como ficou patente com o encerramento de centros de cuidados continuados durante mandatos recentes e o subfinanciamento crônico da Rede Nacional.
Mesmo com estes constrangimentos, “O Poverello” mantém-se fiel ao seu propósito. Quem passa por lá testemunha instalações íntegras, limpas, modernas, um ambiente de alegria discreta e serenidade. Profissionais dedicados — cuidadores, fisioterapeutas, voluntários — trabalham com paixão, conscientes da sua missão. Sair dali sem uma renovação é impossível; sair sem admiração, um erro.
Mais tocante ainda é a humildade dos seus desejos: enquanto tantos sonham com verbos e melhorias opulentas, “O Poverello” pede apenas algo tão simples e comunitário quanto um autocarro (TUB) que suba a Montariol duas vezes por dia, e manifesta, acima de tudo, desejo de proximidade com jovens e crianças para lhes ensinar o valor supremo da vida — desde o primeiro ao último instante.
No tempo em que a política e a burocracia tantas vezes se esquecem do que mais precisa, “O Poverello” grita pelo direito à dignidade. A experiência de servir ali é emotiva, educativa, e, acima de tudo, transformadora. É urgente que toda a sociedade, e em particular quem tem responsabilidades públicas, renove o compromisso com a vida e com os valores humanos mais essenciais. Porque só assim poderemos, como comunidade, garantir a cada pessoa o final que todos merecem: com dignidade, carinho e humanidade.
Esta é a lição maior de “O Poverello” — um farol de bem, num tempo que tanto precisa de exemplos luminosos. Braga, Portugal e o mundo social só têm a ganhar se ouvirem e protegerem quem cuida com este espírito. Nós, do CHEGA, defendemos a vida. Sempre.
Artigo de Filipe Aguiar.


