OpiniãoO valor de quem sustenta o país

O valor de quem sustenta o país

Artigo de Rui Vilaça.

© Rui Vilaça

Há uma realidade, tantas vezes ignorada, que se tornou quase invisível: o país ergue-se todos os dias nas mãos de quem trabalha.

Enquanto muitos ainda dormem, já há homens e mulheres de pé. São eles que abrem portas na madrugada, que põem máquinas a funcionar, que conduzem transportes, que limpam espaços, que constroem edifícios, que cuidam de doentes, que ensinam crianças e que garantem que tudo continua a funcionar. Sem alarde, sem destaque, sustentam silenciosamente uma nação inteira.

No entanto, são precisamente esses trabalhadores que chegam ao fim do mês esmagados pela dificuldade em sobreviver.

Vivemos uma contradição cada vez mais difícil de aceitar: quem produz riqueza não a usufrui. Quem constrói casas não consegue comprar uma. Quem trabalha diariamente vive cansado, ansioso e inseguro. O esforço, outrora associado à dignidade, deixou de ser garantia de uma vida estável.

Durante anos, esta realidade foi apresentada como inevitável. Disseram-nos que salários baixos eram uma necessidade económica, que a precariedade era sinal de modernidade, que a flexibilidade equivalia a progresso. Foi-nos pedido que aceitássemos mais trabalho por menos recompensa como um dever quase moral.

Mas importa chamar as coisas pelos seus nomes.

Quando um trabalhador dedica a sua vida ao trabalho e continua na pobreza, não estamos perante modernidade, estamos perante injustiça.

Quando os lucros aumentam enquanto os direitos diminuem, não é desenvolvimento, é exploração.

Quando o medo de faltar ao trabalho por necessidade financeira se instala como regra, não há equilíbrio económico, há submissão social.

É neste contexto que surgem propostas e reformas laborais apresentadas como técnicas e inevitáveis. Contudo, para quem trabalha, a linguagem burocrática não consegue esconder o essencial: a fragilização contínua de quem sustenta a economia.

A ideia implícita parece clara: um trabalhador ideal é alguém sempre disponível, facilmente substituível e suficientemente cansado para não contestar. Alguém que aceita direitos reduzidos como se fossem benefícios e que encara a sobrevivência como algo pelo qual deve estar grato.

Mas há uma verdade impossível de apagar: sem trabalho, nada existe.

Nenhuma empresa gera riqueza sem pessoas. Nenhuma máquina opera sozinha. Nenhuma economia funciona sem o contributo direto de milhões de trabalhadores. O capital pode organizar, mas é o trabalho que cria.

Tudo o que nos rodeia, infraestruturas, serviços, tecnologia, alimentos, resulta da transformação feita pela energia humana. Ainda assim, quem a produz continua afastado da riqueza que gera.

Tal realidade levanta uma questão fundamental: como foi possível normalizar esta desigualdade?

A resposta passa, em grande parte, por uma construção social que isolou o trabalhador e lhe retirou consciência da sua força coletiva. A ideia de que cada pessoa está sozinha enfraquece qualquer capacidade de mudança.

Contudo, a história mostra o contrário.

Nenhum direito laboral relevante surgiu por concessão espontânea do poder. Cada conquista resultou de mobilização, de resistência e de recusa em aceitar condições injustas. Foram os trabalhadores, unidos, que ao longo do tempo alteraram o rumo das sociedades.

Hoje, voltamos a um ponto de tensão. Cresce a perceção de que o modelo atual não serve quem realmente sustenta o sistema. E, inevitavelmente, aproxima-se o momento em que permanecer em silêncio pesa mais do que agir.

Uma paralisação coletiva, como uma greve geral, não é apenas uma interrupção. É uma demonstração clara de onde reside a verdadeira força de um país. É a prova concreta de que o funcionamento económico depende, acima de tudo, de quem trabalha.

Existe um instante decisivo em qualquer transformação social: o momento em que o medo muda de lado. Esse momento surge quando os trabalhadores reconhecem o valor do seu contributo e a dimensão da força que representam quando unidos.

A grande questão do nosso tempo poderá não ser apenas económica, mas também de consciência. Mais do que lutar por melhores salários ou condições, está em causa o reconhecimento do papel central do trabalho na sociedade.

Importa, por isso, recuperar uma verdade essencial: o trabalhador não é uma peça numa máquina maior. Ele é a própria base dessa máquina.

E no dia em que essa consciência se generalizar, nenhuma decisão política ou económica poderá ignorar aqueles que, na prática, continuam a sustentar o mundo.

Há um momento em que o cansaço se transforma em força, e aí, tudo o que parecia imutável começa finalmente a ceder.

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